18 de setembro 2017

Comunicação Não Violenta

CNV (1)
18 setembro 2017

Comunicação Não Violenta

Conheça uma prática que transforma relações e ajuda a criar um entendimento melhor de si mesmo e dos outros
Texto por: Livia Deodato

Quando se ouve pela primeira vez o termo Comunicação Não Violenta (CNV), o pensamento pode ser o de uma comunicação tranquila e com um tom de voz baixo. Mesmo agindo dessa maneira, as palavras podem estar impregnadas de violência e levarem a conversas truncadas e situações de conflito. A CNV nasceu com o objetivo de amainar esses desentendimentos e fazer com que as pessoas realmente se entendam, a partir da empatia e do acolhimento.

Os diálogos não precisam necessariamente ser recheados de palavrões, ataques desmotivados e acusações: até mesmo em uma conversa habitual e aparentemente pacífica, é possível notar a presença de frases impositivas, irresponsáveis ou desatentas com a posição do outro, como: “Se fizer isso, você me decepcionará”, “Eu fiz aquilo por você e você se nega a me ajudar. Não peça mais nada para mim” ou ainda “Não tinha como fazer diferente, meu chefe me obrigou”.

Esses são exemplos de como as formas culturais predominantes de comunicação, que à primeira vista parecem normais, podem levar a conflitos, afastamento de amigos e familiares e ao desentendimento com pessoas de outras culturas. Na CNV, o objetivo é aprender a usar uma linguagem que permita a construção de confiança e disposição para a cooperação.

O que acontece é que muitas vezes não basta falar a mesma língua para que haja compreensão da mensagem, como explica a psicóloga Sandra Caselato, da consultoria organizacional Sinergia Comunicativa. “Para que uma comunicação seja efetiva, precisa haver entendimento verdadeiro entre as partes. É preciso confirmar constantemente a compreensão de cada um sobre o que está sendo dito. Sem isso, mal entendidos e interpretações distorcidas acabam acontecendo e gerando desgaste que poderiam ser evitados”, diz.

Como surgiu a CNV

A CNV foi desenvolvida na década de 1960 pelo psicólogo americano Marshall Rosenberg (1934-2015), enquanto ele trabalhava como orientador educacional em escolas e universidades que lutavam contra a segregação racial. O psicólogo também fundou o The Center for Nonviolent Communication e, com o impulso de uma rede mundial de mediadores, facilitadores e agentes voluntários, esse centro vem intervindo com meios eficazes em favor da paz. Os princípios da prática podem ser encontrados no livro de Rosenberg “Comunicação Não Violenta –Técnicas para Aprimorar Relacionamentos Pessoais e Profissionais”, mas algumas de suas principais considerações estão em um vídeo disponível em três partes no YouTube.

A Comunicação Não Violenta é aplicada para superar conflitos imobilizadores e violentos. Serve para ajudar pessoas a se expressar em suas relações interpessoais, mas também é utilizada no desenvolvimento de novos sistemas sociais por psicoterapeutas, pela justiça restaurativa, educadores, empresas e ONGs.

A CNV também tem destaque especial no âmbito político. Mais de 60 países fazem uso da prática na resolução de conflitos internacionais. Sandra participa há mais de dez anos, com o marido e parceiro de trabalho Yuri Haasz, da organização de um encontro anual de CNV nos territórios palestinos ocupados. Ela percebe como a utilização dessa metodologia permite adentrar conversas mais difíceis, fazer com que as pessoas possam se sentir realmente escutadas e também consigam escutar os outros com atenção. “Não se trata apenas de uma escuta racional de palavras, mas de uma escuta mais profunda de anseios essenciais que compartilhamos como seres humanos, para que a empatia entre os envolvidos comece a fluir e os ajude a se mover para um locus interno de compaixão, disposição e criatividade para construírem novas realidades conjuntamente”, diz.

Como usar a CNV no dia a dia?

Exercitar a empatia é uma boa maneira de começar a adicionar a CNV na rotina. Para isso é necessário enxergar os sentimentos por trás dos discursos e atitudes aparentes. “Todos os comportamentos e falas das pessoas surgem como expressão de necessidades atendidas ou como tentativa de suprir necessidades. Essa é a natureza de tudo que está vivo: suprir suas necessidades a fim de manter a vida”, indica a psicóloga.

Mas não é assim tão fácil. Trata-se de uma mudança na maneira como a maior parte das pessoas foi educada e socializada. Além de identificarmos as próprias necessidades e a dos outros, é preciso saber expressá-las de forma clara e se responsabilizar por elas, sem obrigar o outro a atendê-las. Ao mesmo tempo, entender o que é violência é um passo importante nesse processo. Ela pode ser a violação tanto física como moral da integridade alheia e ter sentidos diferentes para cada pessoa.

É preciso envolvimento genuíno, paciência e um olhar atento para levar em consideração as próprias atitudes, acontecimentos externos, questões individuais e diferenças. Mas perceber que em meio a tantos fatores há espaço para a discordância e que, mesmo assim, é possível estabelecer conexões a partir da busca do entendimento e de soluções conjuntas. A CNV quer promover uma humanização radical e, pouco a pouco, a transformação da sociedade.