01 de julho 2017

Compreensão em tempos de cólera

Compreensão em tempos de cólera
01 julho 2017

Compreensão em tempos de cólera

Existe um conjunto de regras bem definidas sobre o que é ser homem. A Caixa do Homem é uma construção tão torta quanto inventada.
Texto por: Redação o Valor do Feminino

Durante a minha infância, quando estava em apuros ou perdido, os caminhos eram claros.

Se a ideia era resolver algo — não importava como — chamava meu pai. Se o que buscava era a solução — mas ganhando também um ouvido, o olhar atento, um carinho ou uma palavra amiga —, o endereço era minha mãe.

Quando a asma atacava, era a Dona Rosa quem sentava ao meu lado e comandava a nebulização. Se estava atrasado em relação à turma ao mudar de escola, era ela quem se juntava comigo para estudar o abecedário. Se uma comida como macarrão com molho não me descia, a paciência para separar a macarronada em duas panelas ou passar um bife antes que a fome apertasse parecia inesgotável.

Aos olhos da minha mãe, meus “defeitos” não eram sinônimos de fraqueza, frescura ou fracasso. Errar fazia parte. Não dar conta era um cenário possível. Chorar era permitido. Valentia não virava regra. O diálogo era, sempre, uma certeza.

Ao mesmo tempo, entendo hoje: eu não era capaz de estender a mesma compreensão aos outros enquanto eu crescia. Medos e erros na escola ou na vida eram motivo de chacota. Se tomava um encontrão ou tapa de um colega, o sentimento era de raiva e os planos de vingança borbulhavam. Ser virgem era uma vergonha. Se as escolhas de alguém eram um pouco diferentes das minhas, a desconfiança, a rejeição e os xingamentos brotavam.

Por quê?

Porque homem que é homem não chora. Não leva desaforo pra casa. Precisa ser bem-sucedido e poderoso. Não gosta de esportes? Atestado de fraqueza. É viril e, porra!, não pode perder a oportunidade de estar com uma mulher. Qualquer suposto desvio é suficiente para ouvir (ou dizer a plenos pulmões): bicha, viado, mulherzinha. A carteirinha de macho está sempre em perigo, e a patrulha — nós mesmos — está à solta.

Eu não recebi uma bula ou manual de instruções quando nasci, mas de alguma forma sempre soube: existe um conjunto de regras bem definidas sobre o que é ser homem e o que é ser mulher, e elas não preveem nada disso.

A Caixa do Homem: uma construção histórica e social tão torta quanto inventada.

Sabe o que mais essa coleção de premissas também não prevê? O que essa prisão autoimposta é capaz de fazer conosco.

No Brasil, a expectativa de vida dos homens é, em média, sete anos menor que a das pessoas do sexo feminino. Nos Estados Unidos, a Associação Norte Americana de Psicologia estima que 80% dos homens sofra de uma condição chamada "Alexitimia" — que significa a dificuldade de descrever ou expressar os próprios sentimentos e emoções em palavras.

Ao mesmo tempo em que ansiamos que as mulheres sejam sensíveis, acolhedoras e amorosas, sequer esperamos que os homens consigam colocar para fora aquilo que os aflige por dentro. O panorama geral é repetitivamente aflitivo — emocionalidade restrita, obsessão com controle e sucesso, sede por poder, comportamento sexual agressivo etc —, mas, felizmente, não é definitivo.

Com um guia de conduta apertado e tantas regras castradoras sobre o que não ser, a masculinidade clássica é tão estável quanto um castelo de cartas.

Basta uma briga deixada para lá ou uma noite de sexo trocada por uma com os amigos para que as certezas se tornem mais frágeis. Se a agressividade é considerada um recurso aceitável e a prática da virilidade deveria ser irrecusável, por que, quando optamos por outros caminhos possíveis, sentimentos como paz ou felicidade brotam? Se abraçamos um amigo ao consolá-lo, choramos juntos e o apoiamos em um momento difícil, por que é que a relação fica mais forte a partir daí e não mais fraca?

Quando uma palavra qualquer que trancafiamos na caixa é retirada, uma fresta se abre para que outros valores e significados passem a fazer parte do que entendemos como masculino. Enfiar a cabeça pra fora abre a possibilidade de respirar outros ares e entender que existem outros caminhos possíveis.

Não ter dinheiro ou não ligar tanto para ele não extermina automaticamente a produção de testosterona do seu corpo. Abrir tristezas, insucessos e decepções com amigos não faz de você um fracassado, e sim alguém que demonstra confiança no outro. Não ver graça em esportes ou deixar de frequentar a academia pode te deixar mais barrigudo? Provavelmente. Menos homem? Nem um pouco.

A desconstrução desses estereótipos pode e deve acontecer gradualmente, um tijolo por vez, sem pressa ou meta de um lugar onde chegar. A única coisa que não pode faltar é olhar para dentro.

Não há como aceitar que o outro é falho, tem fraquezas e incertezas, gosta de se cuidar ou é manso como ninguém se, cotidianamente, nos, homens e mulheres, muitas vezes nos forçamos a interpretar um personagem que não reflete a nossa natureza. Não é possível aceitar as escolhas do outro enquanto insistimos em nos violentar e não encarar de frente o que há por trás daquelas que nós mesmos fazemos ou deixamos de fazer.

Eu não era capaz de estender a mesma compreensão aos outros enquanto crescia porque eu não era, sequer, capaz de estendê-la a mim mesmo — sem inventar desculpas, sem me justificar com ressalvas ou deixando de lado o projeto de Ismael que eu pretendia ser. Para compreender os outros é essencial se permitir e compreender a si mesmo.

Sobre a autor:
Ismael dos Anjos é um fotógrafo e jornalista mineiro que acredita em ouvir e contar histórias — inclusive aquelas que acontecem dentro da gente.