05 de fevereiro 2018

Compreendendo o feminino em mim

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05 fevereiro 2018

Compreendendo o feminino em mim

Sobre o autor: Alexandre Putti

Alexandre Putti é jornalista com experiência nas editorias de justiça, política e cultura. É autor do livro-reportagem “As Travas da Prisão”, que retrata o cotidiano das mulheres transexuais no sistema prisional masculino. LGBT com muito orgulho, ele acredita na revolução por meio do conhecimento.

Texto por: Alexandre Putti

Alexandre Putti é jornalista com experiência nas editorias de justiça, política e cultura. É autor do livro-reportagem “As Travas da Prisão”, que retrata o cotidiano das mulheres transexuais no sistema prisional masculino. LGBT com muito orgulho, ele acredita na revolução por meio do conhecimento.

Pegue uma foto da sua mãe.
 
Fique alguns minutos olhando para ela.
 
Lembre-se de quando era criança. Como você enxergava essa mulher? O que pensava sobre ela? Como se comunicava com ela?
 
E como seu pai falava sobre ela? Como ele se comunicava com ela? Se não  teve a figura do pai, pense em outro homem. Pense no que ouviu sobre ela de outras pessoas.
 
Num dos encontros de autoconhecimento para homens que promovo, esse foi o exercício promovido pela Ana Paula Malagueta, faciltadora de círculos de mulheres.
 
Nossa relação com o feminino está diretamente ligada à nossa matriz do feminino, que é nossa mãe.
 
Tudo que você observou sobre ela, tudo que absorveu do seu comportamente e tudo que escutou sobre ela de outras pessoas, influenciaram sua relação com o feminino.
 
A minha busca por autoconhecimento, me fez mergulhar nessas questões. Uma vontade enorme de entender o que é o ser humano e qual seu verdadeiro potencial.
 
Recentemente descobri que eu, como homem também tinha um feminino dentro de mim. Durante toda a minha vida, pensei que pelo fato de ser homem, só tinha o masculino. 
 
Mas todos os seres humanos, homens e mulheres têm dentro de si o masculino e o feminino. É o que os taoístas chamaram de yin e yang. Yin, energia feminina e yang, energia masculina.
 
Então, ao me dar conta disso, comecei a tentar compreender o que era o feminino de verdade, e não aquilo que eu achava que era.
 
E ao observar fui percebendo que muitos dos preconceitos que eu tinha e que me fazia ter comportamentos distorcidos vinham da minha relação errada com o feminino dentro de mim.
 
Como menino, sempre fui orientado a negar qualidades femininas e valorizar as masculinas. Tinha que reprimir minhas emoções e sensibilidade, não podia ser tão caprichoso e gostar das coisas belas. Até gostava de ser desleixado. Isso me fazia achar que estava sendo mais homem. 
 
E de tanto que eu neguei essas qualidades, eu comecei a acreditar que era menos importante, ou menor. E assim eu fui levando o que estava dentro de mim para fora. E comecei a valorizar muito mais as pessoas que demonstravam essas qualidades masculinas.
 
Percebi que só conseguia admirar profissionalmente os homens, ou as "mulheres yang", com energia mais masculina.
 
Vi que diminuia a importância de tudo que estava relacionado ao feminino. 
 
Tudo isso porque dentro de mim, eu diminuia o feminino. 
 
Meu lado feminino não podia ser expressado sem a aprovação do masculino.
 
Era como se para expressar emoções, por exemplo, eu precisasse preencher uma solicitação e enviar para o gerente masculino que iria dizer se naquele momento eu poderia chorar ou não. Se era uma situação que permitisse a minha expressão ou se era melhor guardar para outra hora.
 
Tudo isso acontecendo dentro de mim. Uma espécie de repressão interna. Como aquele homem que escolhe o tipo de roupa que a mulher vai usar. Isso era o que acontecia dentro de mim.
 
E quando acontece essa burocracia interna, você não está se expressando livremente. Não existe liberdade, e sim uma batalha interna acontecendo.
 
No fundo, dividir em masculino e feminino é apenas uma forma de conseguirmos compreender melhor o que acontece dentro de nós. É como ter que desmontar um aparelho e separar suas peças para conseguir identificar o problema.
 
Mas depois que consertamos, podemos juntar e elas deixam de ser peças separadas e passam a ser uma única coisa.
 
Quando compreendemos melhor o que é aquilo que chamamos de feminino e masculino, percebemos que somos completos, inteiros e temos tudo dentro de nós. 
 
E com essa compreensão, podemos simplesmente nos expressar, sem classificar ou dividir. 
 
Homens ou mulheres, masculino ou feminino, tanto faz. 
 
Somos seres humanos.