21 de setembro 2017

Como funcionam as ecovilas?

ecovila
21 setembro 2017

Como funcionam as ecovilas?

Conheça um um modo mais simples e integrado de viver
Texto por: Livia Deodato

A jornalista Tutu Lombardi, 38, decidiu deixar a cidade grande e se mudar para uma ecovila, após visitar uma dessas comunidades para fazer um curso, em 2016. “Depois que eu acabei as aulas, ainda mudei minha passagem uma vez para poder ficar mais um pouco e realizar outro curso. Quando eu realmente saí de lá, tive a certeza de que voltaria para morar”, conta. Ela levou mais ou menos um ano para poder se organizar. Desde agosto passado, vive em Inkiri Piracanga, uma ecovila na Península de Maraú, no sul da Bahia, com 283 membros acolhidos em 68 casas.

Também passou a trabalhar lá na parte de comunicação. Começou como voluntária e hoje recebe uma bolsa-auxílio junto a outros profissionais que atuam em diversos projetos que se baseiam nos pilares da comunidade (artes, autoconhecimento, comunidade, criação, crianças, espiritualidade e natureza). Para ela, a transição foi fácil porque já estava comprometida com aqueles princípios e disposta a levar uma vida mais simples. “Ninguém vem aqui para ficar rico. Óbvio que, se eu estivesse fazendo esse mesmo trabalho de comunicação em São Paulo, estaria ganhando muito mais em dinheiro. Mas não dá para medir a parte de autoconhecimento e espiritualidade”

Quem se encanta com a chance de se afastar do caos das grandes metrópoles deve avaliar bem a possibilidade da mudança, pois as ecovilas não são simplesmente um lugar para se isolar. Cada comunidade tem um sistema de valores sustentáveis, atrelados a questões ambientais, sociais, econômicos e, em alguns casos, espirituais. Cada uma das cerca de 3.000 ecovilas espalhadas pelo Brasil possui uma filosofia e regras próprias de convivência. No caso de Piracanga, é proibido o uso de álcool e cigarro nos espaços comuns e o consumo de carne. Lá, a possibilidade de reaver valores mais primitivos e esquecidos é muito grande. “A potencialidade do feminino aqui é uma coisa incrível. Muito ativada pela sensibilidade, intuição e irmandade, inclusive com os homens”, comenta a moradora.

O que define uma ecovila?

O movimento em torno das ecovilas é recente. O termo foi aplicado internacionalmente pela primeira em 1991 pelo casal Diane e Robert Gilman em um relatório encomendado pela organização Gaia Trust, da Dinamarca. Mas foi a partir de um encontro de comunidades, em 1995, na Escócia, que ele foi melhor sistematizado e difundido. A reunião aconteceu em Findhorn, um dos primeiros experimentos realizados nesse campo, que teve início em 1962, no sul do país.

Na mesma ocasião, foi criada a Rede Global de Ecovilas (Global Ecovillage Network/GEN) que ajudou a dar maior visibilidade ao movimento. Segundo a organização, ecovilas são comunidades rurais ou urbanas de pessoas, criadas por meio de processos participativos para regenerar seus ambientes. Para atingir esses objetivos, utilizam a permacultura, com construções de baixo impacto, produção orgânica, energia limpa e renovável, práticas de fortalecimento de comunidades, economia autossustentável, sistema de saúde integrado e educação holística.

Ainda que as ecovilas tenham nascido em espaços rurais, para que haja mais contato com a natureza e a aplicação dos fundamentos básicos de sustentabilidade, é possível encontrar algumas delas em áreas urbanas. Uma delas é a Santa Margarida, localizada em Campinas, a 100 km de São Paulo. Nesse caso, é preciso instalar toda a infraestrutura necessária para o seu funcionamento, que inclui aprovação na prefeitura para se enquadrar na lei de uso e ocupação do solo (as ecovilas rurais arcam apenas com o Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural). As questões relacionadas ao plantio e à permacultura também ficam mais restritas.

Na prática

Para morar em uma ecovila, é necessário estar em conexão com todos esses valores, entender seus próprios limites, estar disposto a aprender e também fazer concessões. Em uma ecovila, algumas das casas são compartilhadas e se paga pelo quarto, há poucos carros pessoais (ou nenhum), as decisões são tomadas em grupo e os confortos são limitados.

Em Piracanga, o acesso à internet ainda é limitado e o sinal das operadoras apresenta problemas quando chove e há pouco sol, porque as placas solares não conseguem captar energia. Mas os moradores já estão habituados a isso e não há motivos para estresse. “Quando acaba a energia do escritório e não dá para trabalhar, a gente simplesmente vai tomar um banho de rio, fazer uma reunião de criação”, explica Tutu.

Ela vai trabalhar a pé, descalça e leva poucos minutos para chegar. Sua filha, de nove anos, estuda em uma escola da comunidade, reconhecida pelo MEC. Em vez de focar na grade tradicional, a escola liberta as crianças para aprender de acordo com a criatividade espontânea, escolhendo as atividades que desejam desenvolver.

Isso acontece de várias maneiras. “Teve um dia em que, em uma assembleia geral, as crianças grandes estavam descontentes porque toda vez em que iam pegar os talheres na hora do almoço, eles estavam sujos. Eles descobriram que os pequenos não estavam se lavando direito. Para resolver o problema, decidiram ensinar os menores a fazer a tarefa em um domingo, dia em que a escola não abre”, conta.

Apesar de algumas questões fugirem de aspectos mais tradicionais das cidades, existem muitas semelhanças. No geral, a jornalista segue uma rotina convencional. Acorda cedo, pratica ioga, meditação guiada que é oferecida todas as manhãs, realiza atividades domésticas, prepara a filha para os estudos e vai trabalhar.

Para morar em uma ecovila

Caso haja interesse por esse estilo de vida, é aconselhável que se informe e planeje antes de realmente colocar a ideia da mudança em prática. Existem milhares de sites explicando o assunto, mas também é possível ler livros como “Um Fazer Diferente: Vida em Ecovila”, de Susy Goldstein, ou assistir a documentários. Em “Within Reach: Journey to Find Sustainable Community” (“Dentro do Alcance: Uma Viagem para Encontrar uma Comunidade Sustentável”, em tradução livre), o espectador acompanha a jornada por mais de cem comunidades diferentes e pode captar como funcionam suas bases.

É preciso também escolher um local que combine com seus princípios. Depois de descoberto, é possível entrar em contato, realizar visitas para conhecer o local e realizar pequenas imersões. No caso de Piracanga, por exemplo, pode-se fazer um curso de curta duração, uma imersão e, aos poucos, assimilar o modo de vida local. De resto, se houver um encantamento à primeira vista, como no caso de Tutu, basta entender o processo de aceite e preparar as malas.