26 de dezembro 2017

Paternidade ativa

paternidade
26 dezembro 2017

Paternidade ativa

A participação masculina na criação dos filhos não tem nada a ver com aquela imagem antiga de um homem engravatado chegando em casa
Texto por: Rafael Nardini

O colombiano Leonardo Piamonte é uma exceção no Brasil. Em um país onde discutir os deveres dos homens nas tarefas domésticas e no cuidado com os filhos ainda é tabu, Piamonte vive exclusivamente como psicólogo focado na paternidade. Seus clientes são futuros pais ou pais de primeira e de várias viagens.

Em entrevista, ele nos contou um pouco sobre como construir os valores da chamada "paternidade ativa". Ou seja: a intenção de colocar os homens como participante nas atividades da casa, muito além daquela imagem antiga de um homem engravatado chegando em casa e sendo bem recebido pelos filhos e filhas. "A falta de treinamento emocional dos homens, quando meninos, faz com que seja muito difícil gerar sentimentos de solidariedade, compaixão e empatia", comenta Piamonte.

A questão é proximidade, atividade, carinho e disposição. É desconstruir o velho pai severo e ausente pelo trabalho por um modelo receptivo, interessado, que escuta e que se contesta. Trocar o velho modelo por mais próximo das necessidades das famílias do século 21. "Para um pai se tornar mais ativo, precisamos primeiro de políticas públicas voltadas à família. A licença paternidade deveria ser mais extensa e deveria ser feito um trabalho intensivo para a promoção de cursos de profilaxia parental. São cursos em que são discutidos assuntos como a carga mental, a distribuição de tarefas, as expectativas do casal em relação aos cuidados dos filhos e uma porção de coisas", explica o psicólogo.

Nos anos 1950, segundo um estudo da Universidade da Califórnia, um pai passava 16 minutos por dia em atividades com seus filhos. Em 2012, chegou a 59 minutos por dia. É muito pouco ainda. Não muito mais que um pai gasta com um tempo de uma partida de futebol, por exemplo. Além da falta de tempo, não há aproximação com os filhos, sobrando trabalho e estresse para as mães.

Sobre como começar a mudar esse jogo, você acompanha nossa conversa com Piamonte nas próximas linhas.

Queria começar pelo principal. Uma pesquisa recente do IBGE indica que as mulheres gastam o dobro de tempo que os homens com serviços domésticos. Como isso implica na vida social, na carreira e até no humor da mulher?

Não me surpreende, pois bate perfeitamente com os resultados de outra série de pesquisas no mundo todo sobre o que a gente chama de “segunda jornada” ou até “terceira jornada”, inclusive, se considerarmos uma mãe que trabalha e estuda. A questão da divisão das tarefas é um mal silencioso e extremamente danoso. Um fato interessante é que em pesquisas não muito recentes, em mais de 195 culturas do mundo inteiro - envolvendo de sociedades urbanas e tribos rudimentares e isoladas -, as mulheres são responsáveis pelos cuidados do lar e dos filhos em praticamente a totalidade delas. Não é fácil lembrar das exceções à regra, mas uma delas era alguma cultura insular que tinha uma separação de tarefas igualitária e outra em que as mulheres assumiram os deveres da caça e da hierarquia política, sendo os homens os principais cuidadores da prole...


Seja como for, não são precisos grandes estudos para comprovar que a divisão de tarefas no Brasil é extremamente desigual e injusta. A volta às atividades pré-maternidade é uma volta custosa, complicada e cheia de culpas, medos e ansiedades. Em alguns casos, essa volta acaba nunca ocorrendo, obrigando a essa nova mãe a entrar em um empreendedorismo por falta de opção ou a assumir trabalhos sub-remunerados ou em atividades familiares que não envolvem necessariamente um salário. Com a falta de atividades complementares, o excesso de culpa, a falta de perspectivas profissionais e o desgaste da carga mental associada a ser a cuidadora exclusiva dos filhos, os sintomas de depressão, desesperança e ansiedade não tardam a aparecer.


Pela sua experiência de trabalho, quais são os erros mais comuns cometidos pelos pais que sobrecarregam suas esposas e acabam atrapalhando o desenvolvimento das famílias?

Diria que se trata de um problema multicausal. Por uma parte, temos uma educação baseada na divisão de deveres por gênero que hoje resulta extremamente inapropriada e desigual, mas que é tão forte e tão estrutural que muitos pais e mães têm sérias dificuldades não só de se desvencilhar, mas ainda de perceber mesmo a falta de sentido disso.

Existe, ao mesmo tempo e por outra parte, uma devoção e uma supervalorização do trabalho ou da atividade remunerada que acaba eclipsando o trabalho doméstico e a educação dos filhos, passando a ocupar um posto de destaque e relevância que não corresponde com as necessidades emocionais do lar.

A falta de treinamento emocional dos homens, quando meninos, faz com que seja muito difícil gerar sentimentos de solidariedade, compaixão e empatia. A educação redutora das meninas, cria uma leva de mulheres que centralizam o cuidado baseadas numa ideia de incompetência que, por uma parte é indesejada e odiada, mas que por outra é alimentada e provocada, no momento de impedir o homem de se envolver no cuidado, de convidar esse homem a assumir responsabilidades e entregar o filho ou o lar aos cuidados dele.

Você investigou por que as mulheres não conseguem mais serem felizes sendo mães e as possíveis implicações dos homens nessa jogada. O que pode ser mudado rapidamente para que um pai torne-se mais ativo?

Infelizmente não fui tão fundo como queria. Queria ter uma pesquisa mais estruturada, com meios mais apropriados, mas infelizmente tenho apenas uns dados muito exploratórios e crus. Porém, a literatura recente sobre o paradoxo da "maternidade x felicidade" é muito elucidativa no sentido de ilustrar um foco desmedido das mães ocidentais na trivialidade e no anseio de perfeição que acabam criando expectativas muito altas difíceis de atingir, gerando frustrações enormes no dia a dia como mães. Os pais estão alheios, em muitos casos, e a essa problemática da mulher e pelos motivos já falados na pergunta anterior acabam não percebendo a sobrecarga mental das companheiras.

Para um pai se tornar mais ativo, precisamos primeiro de políticas públicas voltadas à família. A licença paternidade deveria ser mais extensa e deveria ser feito um trabalho intensivo para a promoção de cursos de profilaxia parental. São cursos em que são discutidos assuntos como a carga mental, a distribuição de tarefas, as expectativas do casal em relação aos cuidados dos filhos e uma porção de coisas. E isso tudo poderia ser oferecido para esses homens como parte de um acompanhamento pré-natal.

O surgimento de iniciativas privadas como o site de Molico e de outros atores do setor privado são essenciais nessa discussão. Devemos criar um debate amplo, como sociedade, da função do pai como um educador emocional e sua importância na criação de um ambiente saudável familiar que passa pela divisão de tarefas e a iniciativa livre e espontânea de se engajar mais em atividades tradicionalmente consideradas femininas. Trata-se de um momento de revolução social, que deve ser incitado, promovido e discutido em todas as instâncias que for possível.

Você pode falar mais sobre o impacto da maternidade e da falta de presença masculina nas classe C, alvo de sua pesquisa?

Historicamente, as classes menos favorecidas costumam ter pressões sociais e financeiras que atrapalham na promoção de um lar com pais mais presentes e dispostos. Quando uma pessoa deve investir quatro horas do seu dia no trânsito, indo e voltando para o trabalho longe de casa, há um impacto enorme na esfera familiar. Os espaços oferecidos pelo governo nem sempre são apropriados, são afastados em alguns casos ou perpetuam velhos modelos de cuidado que não favorecem uma boa troca dentro do lar.

A classe C historicamente teve menos acesso à cultura, à educação e ao lazer. Vítimas também de um bombardeio midiático, acabam focando seu esforço na aquisição de bens de consumo, de carro particular e eletroeletrônicos para o lar. Com infâncias normalmente baseadas nos estereótipos de hipermasculinidade, os homens da classe C têm uma dificuldade enorme na absorção de tarefas tidas como “coisa de mulher” ou no cuidado e na educação emocional dos filhos, pois sentem que são funções que não batem com a noção de “homem”.  Na maioria das sociedades mundo afora, há uma relação clara entre nível educativo dos homens e participação no lar e no cuidado dos filhos, com exceções notáveis como os Estados Unidos.

Chegamos ao limite do que poderia ser considerado "normal" para pais e vamos precisar encontrar novas soluções. Por onde essas soluções passam?

O mundo mudou. Hoje não é tolerável o desaforo com outras raças, credos ou preferências sexuais. O mundo exige um novo tipo de abordagem, mais inclusiva, mais participativa, menos excludente. Quem reclama do politicamente correto, do mundo chato e do "mimimi" é uma pessoa que vê seus espaços de poder reduzindo e seu conforto de superioridade agonizando, uma espécie em extinção praticamente. As futuras gerações deverão estar mais acostumadas à diferença e abertas a tolerância, produto dos novos fluxos migratórios, da libertação sexual das pessoas e de um mundo de transações mais colaborativas e menos hierárquicas. Nesse sentido, a paternidade não é a exceção. A paternidade de hoje exige um novo tipo de masculinidade, menos bruta e mais afetiva. Uma masculinidade que passa pelos valores tradicionalmente associados ao universo feminino, como a escuta, o diálogo, a confiança nos outros, a solidariedade e o trabalho cooperativo. As soluções para essa nova masculinidade que deve moldar o futuro da paternidade e da sociedade no geral passam pela promoção de novos modelos possíveis. Homens famosos, bem-sucedidos, atraentes e elegantes que exercem uma paternidade mais afetiva, mais ativa... o que é uma tendência no mundo e no Brasil também. Soluções que passam pela compreensão do legislativo da importância da figura paterna em casa, adotando a promoção de leis e sistemas que facilitem essa troca no lar. Passa pela conscientização do profissional de saúde (médico, enfermeira, psicólogo, etc) sobre a importância de um lar equilibrado e ações específicas para esse fim, sejam rodas de conversa, espaços para o cuidado mental do homem, a participação da iniciativa privada na construção desse novo homem, reduzindo os estereótipos publicitários e promovendo outras visões para um futuro emocional mais saudável para a população.

Como as recentes alterações das leis trabalhistas vão afetar pais e mães? Teremos filhos ainda mais distantes dos pais pelas jornadas duplas ou triplas de trabalho para os casais fecharem as contas?

Definitivamente, a perda de direitos conquistados, de seguranças antes legisladas e a precarização do emprego vão afetar a sociedade brasileira no geral, atingindo seu núcleo essencial: a família. É importante promover o debate público sobre a importância do lar bem estruturado e equilibrado na geração de economias importantes para o país, num modelo de planejamento no longo prazo. A Escandinávia entendeu isso na década de 1970. A licença maternidade remunerada tem uma duração de três anos. A licença paternidade tem 90 dias obrigatórios e 90 dias opcionais. Estima-se que em 20 anos a licença paternidade e a licença maternidade tenham a mesma duração na Suécia. O cálculo deles é de que por cada coroa sueca investida nos mil primeiros dias de vida de uma pessoa, a economia pode ser de dez coroas suecas em menos gastos com doenças crônicas, absentismo escolar, fraudes ao sistema e índices de criminalidade.

O nosso país, infelizmente, anda na contramão do conhecimento e da promoção de uma sociedade melhor nesse sentido.