01 de agosto 2017

Com a mão na massa

sustenta capao
01 agosto 2017

Com a mão na massa

Como dois irmãos criaram um empreendimento sustentável em um dos bairros mais violentos da cidade de São Paulo
Texto por: Debora Stevaux

Água aromatizada com laranja, limão, cravo e própolis, pães de queijo quentinhos, cuca de banana com farofa crocante, pães de mel, café e leite. Assim recebeu a repórter o Zé, apelido de José Carlos Anunciação, 36, o homem à frente do Ateliê Sustenta Capão, localizado entre os bairros jardim Valquíria e jardim Aurélio, na capital de São Paulo.

No meio de uma viela estreita do distrito de Capão Redondo, o ateliê impressiona pela decoração e vivacidade das cores: na parede há um quadro de Marilyn Monroe, várias páginas de receitas de revistas, coladas e envernizadas, e fotografias de flores. Encontra-se uma estufa lotada de pães e salgados e bolos redondos organizados lado a lado em estantes de madeira. As paredes alaranjadas dividem espaço com os discos de Caetano Veloso e de Clara Nunes, os abajures redondos com estampas de frutas. Uma mesa feita de madeira ao redor do tronco robusto de uma árvore, sem atrapalhá-lo. “Está vendo que bonito? A maioria, para não falar quase todas essas coisas que vocês estão vendo, eu achei no lixo. O lixo é luxo para a gente”, comenta.

sustenta-capao-(2)

Zé é um dos trinta e cinco homens de sua família: quinze já morreram, outros quinze estão presos. Dos cinco homens em liberdade, Zé e seu irmão Bruno Capão, de 28 anos, são referência no bairro onde moram. “A nossa história começa com o nome de uma mulher, Ezelina Mahmed da Silva, nossa avó, mãe de oito filhos, curandeira, uma das mais antigas moradoras da nossa comunidade”, conta Zé que entrou no mercado de trabalho com doze anos de idade para ajudar na renda familiar. “A nossa família vivia numa situação de extrema vulnerabilidade, mas as mulheres da nossa família foram sempre a nossa força motriz, por uma questão de necessidade — o meu pai e os pais dos meus irmãos nos abandonaram. A preocupação da minha avó era nos alimentar, não tínhamos fartura nessa época, morávamos todos num mesmo barraco. Mas tudo que ela fazia rendia, era como mágica ver a minha avó colocando as mãos na comida.”

A avó, falecida há dez anos, era uma ótima cozinheira, mesmo com poucos ingredientes. “Meu primeiro bolo foi um bolo muito simples, massa de baunilha com goiabada e creme de ovo batido. É um dos bolos que eu vendo até hoje. Foi aí que nasceu o meu amor por comida, por cozinhar.”  Eram raras as vezes que Zé tinha bolo em casa. “Até hoje eu sinto um prazer imenso em comer bolo quente e este continua sendo o meu sabor favorito.”

Aos 14 anos, Zé começou a trabalhar em uma padaria do bairro. Desde o início, quando era apenas um moleque, o sonho de empreender já o acompanhava. “Mesmo tendo trabalhado desde cedo, eu nunca tive condição de montar um lugar assim. As aparelhagens são muito caras, os fornos. Dentro da favela, a gente vive uma vida árdua de luta para conseguir o mínimo de dignidade. Vivemos a vida toda para construir algo que é o mínimo.”

sustenta-capao-(5)

Pão de mel famoso

Zé resolveu enfrentar as dificuldades e montar o seu ateliê. O início desse processo começou na pequena cozinha de sua casa. “Era um forno e uma batedeira convencional e seis jogos de xícaras”, lembra.  De 2008 a 2011, trabalhava em uma badalada padaria do rico bairro dos Jardins (zona oeste da capital paulista), mas não podia desfrutar de tudo o que eu produzia.

Então, decidiu sair. Estava cansado de viajar de seu bairro para ir até o outro lado da ponte fazer receitas maravilhosas. “Voltava para dentro de casa e a minha realidade era outra. Eu não vivia aquilo que eu proporcionava para os outros.”  Com o dinheiro de quatro anos de rescisão de contrato e dois empréstimos, comprou o terreno de sua casa. “Finalizei minha casa e sobraram 70 reais. Com esse dinheiro, fiz a receita do pão de mel da minha avó.”

sustenta-capao-(6)

Os 70 reais viraram 140 no mês seguinte. No outro, já eram 280. Foram inúmeros batizados, casamentos e aniversários que serviram o pão de mel do Zé. O boca a boca dos moradores da comunidade e o poder de divulgação da página no Facebook, que já contabilizava 500 curtidas em seu primeiro mês de criação, levaram ao Capão de Mel.

Zé credita o sucesso também à confeiteira Nininha Sigrist, famosa entre os ricos paulistanos. Ela percebeu que ele era grande demais para ficar nos bastidores da badalada padaria dos Jardins. “Veio com a maior generosidade do mundo e ofereceu a sua cozinha para que eu pudesse trabalhar por dois anos com ela. Eu me aprimorei ainda mais e desenvolvi uma linha de produtos com ela. Ela distribuía os doces em toda a cidade. De repente, o pão de mel do Capão estava dentro do shopping Iguatemi.”

sustenta_capao3 (1)

A participação em um famoso programa de TV em 2014 rendeu aos irmãos um forno industrial e alguns acessórios de cozinha fundamentais de panificação. “Melhorou muito a qualidade dos nossos produtos. Mas as pessoas começaram a dizer que nós enriquecemos com isso, o que não é verdade. Quando eu ganhei esses equipamentos, não tinha nem onde colocar, deixei no depósito de uma amiga por dois anos.”

Doce social

Com resíduos de construção, Zé reformou todo o quintal de sua casa, que hoje também é usado para ampliar a atuação do ateliê. “Customizei e transformei tudo. Saí da área da vulnerabilidade e parti para o campo dos sonhos com todo aquele lixo. Construí um espaço para receber amigos, parceiros, clientes”, diz sobre a área verde decorada com uma parreira, onde são ministradas as experiências gastronômicas do ateliê, uma espécie de café da manhã reforçado, no esquema “pague quanto puder”.

Hoje, o Sustenta Capão conta com cinco colaboradores que recebem uma ajuda de custo e todas as receitas são desenvolvidas dentro do ateliê, localizado há pouco mais de duas quadras de sua casa. O quintal de Zé é usado apenas para ocasiões especiais, como os cafés, quando são reunidas pessoas da comunidade e “do outro lado da ponte” (em referência aos bairros mais abastados que ficam do outro lado do rio Pinheiros, em São Paulo). “Meu sonho individual acabou se tornando algo coletivo. Eu estou onde eu queria estar, fermentando uma empresa social.”

Metade da produção alimentícia do comércio é consumida pela quebrada e a outra, por clientes de fora dela que confiam e conhecem a qualidade dos produtos. Zé é referência na família não apenas porque está realizando seus sonhos. É chamado de pai pelos sobrinhos e sobrinhas, que possuem a figura paterna ausente. “A história se repete muitas vezes, né?”.

O paulistano também ministra oficinas para crianças e adultos para que outros moradores também aprendam atividades de panificação. “Quando você vem aqui e compra um bolo, um pão de mel, você não está comprando só o produto, mas um sonho de transformação. Trabalho muito porque sei das condições precárias que todos vivem aqui. Durmo e acordo pensando em como transformar isso numa coisa melhor.”

Muito mais do que preparar e ensinar a fazer quitutes, o desejo de Zé é mostrar que é possível ser agente de mudança em uma comunidade carente. “Quero que as pessoas saibam que elas podem sonhar grande. Isso aqui ainda vai gerar renda, vai formatar muitos sonhos ainda. Vai ser a melhor padaria de São Paulo. Na realidade, já é, mas nem todos conhecem ainda.”


Serviço: O Ateliê Sustenta Capão funciona de segunda a sábado, das 10h às 20h, e fica na rua Do Valboeiro, nº 72, jardim Valquíria, São Paulo (SP)