02 de outubro 2017

Coisa de menino, coisa de menina

meninos e meninas
02 outubro 2017

Coisa de menino, coisa de menina

Por que as pessoas são incentivadas de formas diferentes e o que pode ser feito para mudar isso?
Texto por: Debora Stevaux

Rosa para as garotas, azul para os meninos. Kits de cozinha e de limpeza para elas; carrinhos, jogos de lógica e ciência e bola para eles.  São escolhas feitas há tantas gerações que parecem inofensivas. Criar uma criança não é tarefa fácil em nenhuma esfera e não seria diferente no que diz respeito à construção dos papéis de gênero.

Os estímulos que chegam por brinquedos e atividades estimulam um universo restrito à vida doméstica para as meninas, enquanto os garotos são incentivados a desenvolver um comportamento aventureiro e de liberdade de escolha.

Não existem estatísticas nem estudos oficiais sobre os tipos de brinquedo que são indicados para meninos e meninas, desde sua concepção até as ações de marketing. Mas se sabe muito bem, com dados científicos, que até os dois anos de idade são formadas as mais importantes conexões neurais de um ser humano. Por isso, é certo que os estímulos oferecidos aos bebês e crianças pequenas são fundamentais e capazes de direcionar seus interesses até o fim da vida.

Um bom exemplo vem de um experimento realizado neste ano pela BBC para provar o impacto dos estereótipos de gênero causado pela escolha de brinquedos infantis. Quatro participantes foram convidados para brincar com dois bebês, Marnie e Edward, vestidos de forma a parecerem um garoto e uma garota, respectivamente. A garotinha “mudou” de nome e foi apresentada como Oliver e o garoto, como Sophie.

Foram feitas gravações separadas com cada um dos adultos e adivinha quais brinquedos foram escolhidos? Naturalmente, para Oliver foram oferecidos os “de garoto” —  robôs e carrinhos  —, e para Sophie, os “de menina”  — bichinhos de pelúcia e bonecas. Ninguém se preocupou com as habilidades ou os gostos dos pequenos, mas sim com o que seria “ideal” para cada um de acordo com seu gênero. Todos os participantes se surpreenderam com a revelação final de que Oliver, na realidade era uma menina e Sophie, um garoto, e admitiram não ter pensado duas vezes sobre suas decisões.

É extremamente negativo para o desenvolvimento da criança seguir a raiz social de concepções que concebe que a mulher seja diferente do homem desde a infância, em relação a ofícios, direitos e competências, segundo Ana Abreu, professora e pesquisadora em educação da Universidade Federal de Alfenas. “Isso resulta na perpetuação de ideias de que tudo o que é forte vem do homem e tudo que é frágil vem da mulher. É extremamente perigoso porque determina conduta, valores e preconceitos que refletem nas ações da humanidade de uma forma geral”, afirma.  

Ana lembra que meninas estampam embalagens de bonecas, enquanto nas de skates, por exemplo, há imagens de menino. “São exemplos do cotidiano que acontecem de maneira recorrente. O que acaba por revelar uma determinação social que encaminha a mulher para alguns perfis e o homem para outro”, explica.

Apagamento histórico

Bem poucas mulheres são lembradas nos livros de história da educação básica. Até se fala bastante sobre Revolução Francesa e sobre a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, mas quase nunca o nome de Marie Olympe de Gouge é mencionado. E isso não ocorreu por acaso, como conta a historiadora Marta Gouveia de Oliveira Rovai, pesquisadora de gênero e sexualidade do Núcleo de Pesquisa e Estudos de Gênero e Sexualidade da Universidade Federal de Alfenas. “Houve um enorme silêncio sobre a participação das mulheres em número significativo nos processos como a Revolução Francesa. Elas lideraram agrupamentos para derrubar a Bastilha e colocaram em xeque as relações patriarcais, como o fez a filha de um açougueiro, Marie Olympe de Gouges, que chegou a redigir a Declaração da Mulher e da Cidadã, em 1791, em oposição ao documento estritamente masculino – mas tratado como universal – que foi redigido por jacobinos e girondinos, conhecido como a Declaração do Homem e do Cidadão, de 1789.” Condenada à morte pelos chamados revolucionários, Gouges teve sua história apagada, como a de tantas outras. Inclusive as que, no espaço privado, garantiam o sustento da família enquanto os homens estavam em luta e nas guerras.

A forma como a história é contada também contribuiu com uma perspetiva congelada e naturalizada de costumes, relações e valores, que se tornam produtos culturais, sociais e políticos. “O mundo naturalizado torna-se masculino, atingindo a própria linguagem, que se manifesta também por gênero, enquanto a mulher parece ser o seu outro, o avesso”, alerta Marta.

Basta notar como os eventos heróicos e públicos reforçam conceitos como virilidade, força e liderança aos homens enquanto às mulheres atribuem-se qualidades ligadas à emoção, ao familiar, ao irracional, estabelecendo-se sempre hierarquias. “Isso contribuiu para reforçar hábitos e discursos que conformam as maneiras com que educamos crianças, dividindo-as em espaços, disciplinando-as e culpabilizando-as por seus desvios na forma de ser e de entender o mundo”, completa a historiadora.

Comunicação sexista

Não há como desconectar o que falamos do que vivemos, uma vez que a linguagem é, em suas diversas modalidades, um reflexo das nossas relações sociais. Para Tais Matheus da Silva, membro do Núcleo de Estudos sobre Gênero e Sexualidade do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), a desigualdade de gênero é resultado dos nossos atos de comunicação. “Antes mesmo do nascimento, uma prática linguística arbitrária já determina os papéis que indivíduos devem desempenhar, recebemos um nome que nos identifica como homem ou mulher e, a partir deste nome, recebemos uma série de estímulos para que nos comportemos como homens ou mulheres.”

Taís lembra a obra o “O Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir. No segundo volume, a filósofa e escritora francesa analisa o desenvolvimento e a criação de homens e mulheres, do nascimento à vida adulta. Simone demonstra que os corpos são iguais até a puberdade e as diferenças vêm do tratamento destinado a meninos e meninas.  Enquanto eles são incentivados a buscar aventuras, a desenvolver a força física, a estudar, a suportar a dor com bravura, a não temer,  elas são tratadas como frágeis, seu choro é acalentado nos braços paternos, seu silêncio é esperado e valorizado, aprendem as tarefas domésticas para que almejem uma vida dedicada ao lar. “É verdade que o mundo mudou desde que Simone de Beauvoir publicou essa obra. Seguimos, no entanto, reproduzindo esses estereótipos, valorizando a hierarquia de gênero e subestimando a capacidade dos indivíduos de exercerem tarefas que não são adequadas ao seu gênero”, esclarece Tais.

Uma das formas de evitar que meninas e meninos sejam estimulados de formas diferentes durante a infância é evitar bordões preconceituosos como “isso é coisa de menina”, "pare de chorar, porque parece uma mulherzinha", "comporte-se como uma moça". Também é preciso parar com termos pejorativos para se referir a mulheres, gays, lésbicas, transexuais etc. “Pais, mães e familiares que dizem coisas assim estão ensinando seus filhos e filhas a reproduzir preconceitos e a reafirmar o papel de submissão da mulher. É possível ensinar crianças a se desvincular dessa lógica desigual, policiando a linguagem e apresentando a elas outras possibilidades para além da reprodução de papéis de gênero”, reforça Tais.

Para isso, é possível usar livros infantis, como o “Tudo Bem Ser Diferente”,  da Editora Panda Books, ou que apresentam exemplos de homens e mulheres admiráveis sem a roupagem de príncipes, princesas ou super-heróis, como a coleção “Antiprincesas e Anti-heróis", da Editora Sur.

Por onde começar?

       O termo é apenas um: igualdade, não importa o gênero. Todos precisam mostrar às pequenas que elas podem, sim, brincar de carrinho e sonhar em ser astronauta, por exemplo. E para os garotos, que é importante que eles brinquem de boneca, uma vez que é na primeira infância que são construídas as principais referências afetivas para ser um irmão, tio ou pai comprometido com os cuidados das crianças que estão próximas.

“A igualdade entre o homem e a mulher é fundamental na medida em que as escolhas profissionais vão sendo concebidas a partir das brincadeiras e das relações estabelecidas no meio social. Em um meio machista, as realidades são agressivas”, explica Ana Abreu. Esse contexto se reflete em números: mais da metade das empresas brasileiras não tem mulheres em cargos de liderança, o que coloca o Brasil na 3ª posição do ranking dos países que menos promovem suas funcionárias, segundo o levantamento  Women in Business 2015, desenvolvido pela empresa norte-americana Grant Thornton.

Veja como atividades do dia a dia podem quebrar estímulos equivocados relacionados aos gêneros.

  • Quando tiver crianças sob sua responsabilidade, deixe-as brincar com todos os brinquedos disponíveis. Se houver meninos e meninas, coloque-os para brincar juntos.

  • Uma das cenas mais comuns após um almoço em família é: meninas retiram as louças e as lavam enquanto os homens seguem conversando na mesa ou vão assistir TV. Proponha que todos, desde cedo,  participem da arrumação e mostre aos meninos a importância de ajudar nas tarefas domésticas.

  • Faça com que os garotos ajudem a cuidar dos irmãos ou primos mais novos.

  • Em casa, estabeleça tarefas diárias iguais para ambos os sexos, desde recolher os brinquedos, arrumar a cama e limpar a sujeira que fizeram. Isso fará com que os meninos criem responsabilidade sobre o trabalho doméstico.

  • Deixe sempre que os meninos transpareçam suas emoções, que chorem, se quiserem. E em hipótese alguma o repreenda com argumentos como “chorar é coisa de menininha.”

  • Evite a divisão de cores para roupas e acessórios.

  • Não crie nas meninas a expectativa de que o casamento é a realização mais importante da vida. Isso é muito comum em histórias de princesas, que encontram um príncipe e vivem “felizes para sempre”. No caso dos meninos, isso nem sequer é pensado. Uma pessoa é feliz e realizada quando vive conquistas em todas as áreas da vida que considera importante.