03 de novembro 2017

Casa do presente

casa do presente (3)
03 novembro 2017

Casa do presente

Projeto paulistano reúne jovens para que aprendam o que não encontram na sala de aula
Texto por: Julliane Silveira

Ensinar o que a escola não ensina. Este é o objetivo da Casa do Presente, projeto paulistano idealizado pela educadora argentina María Luján Tubio e que tem parceiros como Cleber Paradela (sócio da Agência Tudo), a Elena Crescia (curadora do TEDx SãoPaulo).

A ideia é reunir alunos de 13 a 19 anos para estudar temas que eles considerem relevantes para si e que não são discutidos em sala de aula. “As pessoas acham que, por serem mais jovens, não sabem o que é bom. É um grande aprendizado para nós descobrir que eles sabem, sim”, diz María.

Os 35 alunos que frequentam os workshops gratuitos da casa já conversaram sobre trabalho com propósito, alimentação saudável, colaboração e compartilhamento, conexão com o feminino, inteligência emocional, yoga e meditação. “Os professores são, na verdade, facilitadores e mediadores das vivências. Os alunos co-ensinam, há uma troca constante. O mais importante para o jovem é ser respeitado e escutado e isso é o que mais falta na educação”, analisa María.

A casa conta com 17 professores voluntários e as atividades são viabilizadas por parcerias e apoiadores.

O princípio do trabalho se baseia em um modelo educacional que não vise conteúdos isolados ou descontextualizados, mas que procure integrá-los com os oito elementos que compõem a felicidade, segundo a Roda da Vida (ferramenta baseada em filosofias orientais): lazer, intelecto, saúde, vida financeira, amigos/família, trabalho/carreira, espiritualidade/amor.

Para garantir a adesão e assiduidade dos alunos, a escola tem quatro princípios não negociáveis: a participação não pode ser obrigatória (o jovem vai à casa porque quer); todos podem participar, sem elitismo – metade das vagas é destinada a alunos de baixa renda; as atividades não podem ser realizadas dentro de uma escola tradicional; os alunos escolhem o que querem aprender.

“A ideia é incentivar um comportamento positivo por meio desses valores, sem imposição de regras rígidas”, explica María.

A forte interação entre alunos, conteúdo e professores está na gênese do projeto, que começou com um “hackathon” pouco convencional. Em agosto de 2016, 40 jovens se reuniram por dez horas para propor um modelo educacional inovador que envolvesse disciplinas, vivências e formas de aprender que a escola tradicional não oferece. Isso ao lado de uma equipe de especialistas de diversas áreas, também incomodados com a forma de ensinar de escolas públicas e privadas.

“Eles imaginaram, conversaram e co-criaram a escola dos seus sonhos. Assim nasceu a Casa do Presente”, explica Maria.

A Casa entende, no entanto, que o protagonismo dos alunos passa por uma formação mais atenta e global dos professores.  “Todo educador precisa, antes de tudo, fazer um trabalho constante de autoconhecimento e olhas para suas questões pessoais. Eles precisam receber suporte e informação para que possam ser fonte de inspiração para os jovens”, indica Danielle Fellipe, professora da casa.casa do presente (1)

Meninas e meninos

Para os educadores da Casa do Presente, crescer e entender o papel que a mulher ocupa na sociedade pode ser um processo muito doloroso. “Por isso, queremos que elas se conectem com sua força feminina e organizamos uma vivência relacionada com a ginecologia natural e o poder do feminino”, argumenta María.

Por meio de vivências específicas, as meninas aprendem a conhecer melhor o próprio corpo: entendem como aproveitar as quatro fases do período menstrual e por que não é uma boa ideia usar pílulas anticoncepcionais durante esse processo. “A maioria dos adolescentes traz relatos sobre seus relacionamentos, sentimentos de inadequação, baixa autoestima. Querem ser ouvidas e acolhidas”, diz Danielle. “Também vejo uma grande desconexão com o corpo e seus ciclos”, acrescenta.

É claro que os meninos não são excluídos dessas vivências. Nesse tipo de proposta, eles reaprendem a desenvolver relacionamentos baseados no respeito mútuo e no amor verdadeiro.

“O jovem está mais conectado consigo do que o adulto padrão, porque não foi corrompido. Ainda sonha, ainda quer transformar o mundo. A educação deve preservar e incentivar esses sonhos e não destruí-los”, resume María.