16 de outubro 2017

Cada família uma sentença

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16 outubro 2017

Cada família uma sentença

Como o excesso de patrulha alheia dificulta o trabalho dos pais de educar seus filhos de acordo com seus valores
Sobre o autor: Ricardo Toscani

É pai da Alice, marido da Lúcia, filho da Roselene, irmão da Renara e da Renata. Foi cercado por essas mulheres incríveis que ele aprendeu que ser um homem feminino é muito bom. Nas horas não vagas, é fotógrafo, músico nas bandas Los Freelas de una Pauta, Schröder e Murilos são Polêmicos, além cozinheiro - dizem que faz a melhor galinhada do eixo São Paulo-Rio Grande do Sul.

Texto por: Ricardo Toscani

É pai da Alice, marido da Lúcia, filho da Roselene, irmão da Renara e da Renata. Foi cercado por essas mulheres incríveis que ele aprendeu que ser um homem feminino é muito bom. Nas horas não vagas, é fotógrafo, músico nas bandas Los Freelas de una Pauta, Schröder e Murilos são Polêmicos, além cozinheiro - dizem que faz a melhor galinhada do eixo São Paulo-Rio Grande do Sul.

Quantas brigas entrei nesta vida quando alguém tentou impor algum tipo de orientação sobre como criar minha filha.

Parentes e pessoas com amplo grau de intimidade me incomodaram muito quando tentaram de algum jeito, às vezes até com muito jeito, manifestar sua opinião no como criar.

Arrependo-me dos embates com os parentes: às vezes usamos uma força desnecessária com pessoas que querem o mesmo que nós, isto é, um mundo e pessoas melhores. Não podemos nos incomodar com o zelo. Isso no caso de um parente.

No entanto, vejo um desespero muito grande quando um grupo político, mesmo se dizendo apartidário, tentando impor a forma como devemos criar nossas crianças e ainda questionar o que é arte.

Eu estudei um pouco de história da arte, sei pouco, mas o suficientemente para entender que ela é interpretativa. Todas as sete artes são: música, cênicas, pintura, escultura, arquitetura, literatura, cinema. Cada indivíduo absorve essas e outras de maneira diferente.

Cada um sabe a criança que tem em casa e como o convívio será melhor.

Quando uma sugestão ou conselho que é dado por alguém, é preciso primeiro que o conselheiro em questão saiba o quanto sua importante dica vai se adequar nas 24 horas de convivência dentro do lar das pessoas que merecem tal preocupação.

Não posso falar das crianças do mundo. Sou responsável pela minha. Esse é meu melhor e mais difícil trabalho.

Numa viagem, ela prefere praças e parquinhos, às vezes precisa entrar num museu. Viaja com os pais, o grupo trabalha junto. Os programas são feitos assim, em família, dentro do conceito de que cada família é um país com suas regras.

Nossa família vai a museus juntos. Certa vez estávamos no Centre Georges Pompidou, em Paris, visitando o acervo de Duchamp. Havia nessa mostra uma exposição de Jeff Koons, com fotos dele tiradas com a então esposa, Cicciolina. As imagens eram belas e nada recatadas, cenas que muita gente ama fazer no conforto e intimidade do seu lar, inclusive eu, mas coisas inadequadas para menores de 18 anos. Aliás, na entrada dessa sala tinha uma imagem não tão bonita, nem tão artística, mas bem reveladora. Era uma classificação indicativa. Antes das imagens de Koons, na entrada da sala, havia uns dizeres diante de uma cortina roxa de veludo molhado:  “Enfants de moins de 18 ans”. Não sou fluente em francês, mas felizmente eu tenho mínimo conhecimento em bom senso. Isso me ajudou a decidir que nessa parte da exposição entraria eu, depois minha mulher e cada um em seu momento de espera ficaria com a criança em outro ponto, vendo e fazendo outra coisa.

Fico pensando o quão perdido anda um pai ou uma mãe que precisa do aval de um grupo, da aprovação de incipientes adultos dizendo o que pode ou não ser bom para a criação de um filho. Jovens que não sei se em suas vidas já foram responsáveis por um pequeno ser - pode ter sido cão, peixe, pássaro, gato, planta, hamster ou até um Tamagoshi, aquele animalzinho virtual criado em 2005.

Criar um filho é um exercício diário de erros e acertos, não se acha em livros.

Tenho em casa uma filha maravilhosa que, aos seis anos de idade, já via desenhos com classificação indicativa para 10 anos. Uma vez ela me chamou de vacilão. De onde veio esse vocabulário? Da escola pensei, dos seus colegas.


– Do que tu me chamou?

– Vacilão.

– Cara, o que é isso? De onde tirou?

– Pai, o Rigby chamou assim o Mordecai num episódio do “Apenas um Show”.

– Ah, tá.


Nesse momento me dei por conta que fui eu que permiti que ela assistisse ao desenho. Se ela me falasse isso aos dez, eu aceitaria mais fácil que aos seis.


– Entendi. Mas ó, isso é tipo um palavrão. Tu viu se o Mordecai ficou triste?

– É, ele não gostou.

– É isso. Bom, não me ofendeu, o pai queria saber como tu conhecia essa palavra.


A vida é mais simples quando a descomplicamos.

Pouco me choca uma criança manipulando um corpo nu dentro de um museu, diante de pessoas sabendo que essa criança está com sua mãe, que, em geral, tem muito mais senso de proteção do que nós, pais.

O que me choca é eu ter que falar pra minha filha de oito anos que ela não tem mais idade para sentar no colo de ninguém, eu ter que pedir para minha filha ser menos amorosa e não confiar em qualquer pessoa. Afinal, existem monstros de calças, que atacam mais e manipulam muito mais do que os nus de museus. Choca saber que a maioria dos casos de pedofilia vem de pai, tio, primo, amigo, na escola e inclusive de instituições religiosas, que pregam o que acham que disse Deus.

O falso moralismo habita mais em escolas e cultos do que em museus. A falta desse entendimento está levando a gente para um período de pouca luz. A Bíblia também fala em livre arbítrio, no poder de a gente escolher em que porta entra, se entra sozinho, acompanhado, com ou sem criança. Em cada escolha saímos diferentes. Vivemos experiências e é isso que a arte faz no mundo. Ela nos incentiva a pensar.

Não vou combater a arte se não gosto dela. Posso não gostar, mas proibir é errado. Posso apenas me dar o direito não querer vê-la.

Não combato museus, preciso deles, quero combater o que estraga a vida, não o que questiona. O que estraga a vida é não poder ser livre.

Livre para andar dentro de ônibus, trem, metrô, com a roupa que se gosta e se sente bem, livre para voltar casa de noite olhando a lua, conduzido pelo vento.

A maldade não está na arte, no museu. Ela está bem mais perto do que você imagina, a maldade está dentro cabeça.