22 de dezembro 2017

Caçadores de bons exemplos

cacadores de bons exemplos
22 dezembro 2017

Caçadores de bons exemplos

Iara e Eduardo contam como e por que venderam tudo há seis anos e estão na estrada atrás de pessoas que fazem a diferença
Texto por: Livia Deodato

Cansados de ouvir notícias ruins, o casal mineiro Iara e Eduardo resolveu tomar uma atitude. Em vez de ficar reclamando em frente à TV e disseminando toda essa negatividade por aí, decidiram ir atrás de pessoas que fazem a diferença. A ideia nunca foi descobrir Madres Teresas de Calcutá ou Mahatmas Gandhis, mas sim dar visibilidade àqueles que acreditam muito mais em ações positivas e no movimento de mudança para o bem que isso é capaz de provocar. “Consideramos bons exemplos as pessoas que fazem a diferença na comunidade em que vivem, executando algum projeto social. Não são santos, mas pessoas comuns que estão trilhando um novo caminho em suas vidas”, diz Iara. O casal vendeu tudo o que tinha, inclusive seu apartamento e, desde janeiro de 2011, estão na estrada como Caçadores de Bons Exemplos.

A casa deles agora é num carro 4 x 4. Dormem em uma barraca acoplada no teto e guardam algumas peças de roupa num pequeno guarda-roupa localizado no porta-malas. Na parte de trás também há uma geladeirinha, onde carregam alguns mantimentos para enfrentar toda sorte de imprevistos pelas estradas. Já percorreram mais de 405 mil km, passando por cerca de 700 cidades, e catalogaram 1.450 projetos. No site, eles convidam também outros “caçadores de bons exemplos” a deixar seus registros a fim de inspirar outras pessoas.


Vocês sentiram medo de mudar drasticamente de vida? De quê, mais precisamente? Como superaram esse medo?
O medo é essencial ao ser humano. Senão, pularíamos de uma montanha achando que somos o Super-Homem! A dificuldade que teríamos eram previsíveis, como a falta de dinheiro e como as pessoas nos receberiam em suas cidades. Com relação às dificuldades imprevisíveis, nos preocuparíamos apenas quando elas aparecessem. As dificuldades e os medos enfrentamos juntos, um apoiando o outro.


Como vocês buscam essas histórias? Contam com a ajuda de conhecidos?
O grande termômetro seriam as pessoas dos lugares por onde passaríamos. Não pesquisamos na internet, pois pode haver divergências ou “maquiagens”. Então, chegamos na cidade e perguntamos: “Quem é um bom exemplo aqui na sua cidade?”. E, assim, de pergunta em pergunta, de indicação em indicação, chegamos aos projetos, às ações. Como moramos em um carro-casa e sempre estamos nas ruas, a dinâmica/metodologia acabou se tornando bem interessante.


Como é feito o roteiro da viagem?
Sabíamos que começaria em Minas Gerais, pois somos mineiros de Divinópolis, e terminaria no Rio Grande do Sul. Teríamos de passar por todos os  estados brasileiros, por qualquer tipo de estrada. Importava para nós apenas o bom exemplo que iríamos conhecer. O roteiro foi feito pelas pessoas que conhecemos na estrada e por meio das redes sociais.


Como aprenderam a viver o hoje e não se preocupar tanto com o futuro?
Que futuro? O que significa futuro? O o futuro é incerto! Acreditamos que o “pré-ocupar” dá muito trabalho. Resolvemos viver e conviver no melhor presente que temos: o presente. Você pode dormir hoje e amanhã não acordar. Portanto viva o hoje. Isso não significa ser inconsequente, pelo contrário, é viver com significado.


Qual foi a maior aventura que vocês já enfrentaram nesses mais de 400 mil km rodados até o momento?
O trajeto da BR-319 entre Manaus (AM) e Porto Velho (RO), enfrentando a Floresta Amazônica, em 2013, foi a mais reflexiva e transformadora aventura de nossas vidas. Ficamos quatro dias sem contato com ninguém, sem sinal de celular. Apenas o contato com a natureza e com nossos pensamentos. Atolamos o carro, passamos por mais de 120 pontes de madeiras e com risco de contrair febre amarela, picada de cobra… Mas lá refletimos sobre o verdadeiro sentido da vida.


Poderiam contar três das histórias que tenham ensinado algo muito grandioso pra vocês?
Temos várias histórias, pois foram mais de 1.400 conhecidos. Mas podemos destacar, em Minas Gerais, o Tião Tocha do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), onde foram criadas mais de 1.500 tecnologias sociais de como educar uma criança com baixo custo. A história dele é linda, pois um dia ele cansou de ser professor e se tornou um educador. Nos prova que esse é o caminho de nossa educação. No Rio de Janeiro, temos a Vera Cordeiro, do Saúde Criança, que empodera famílias não somente com o tratamento da saúde tradicional, mas também oferecendo acolhimento e transformação social junto a uma equipe multidisciplinar. Nos prova que a verdadeira medicina existe. Em São Paulo, temos o Dr. Otoboni, que idealizou e ajudou a criar o método APAC, que cuida de detentos de uma maneira digna e reestruturadora. Nesse método, os próprios presos/detentos cuidam entre si, fazem sua própria comida, têm aulas de artes, marcenaria etc. O lema é “matando o criminoso e salvando o homem”. Mas temos vários projetos pelos quais somos apaixonados. Isso nos prova que o Brasil tem problemas, mas tem solução para todos eles.


De onde vem a renda de vocês atualmente? Vocês contam com algum tipo de patrocínio ou apoio? Ou acreditam no poder da sincronicidade de acordo com a necessidade de vocês?
Não temos patrocínio, vínculo religioso nem político. Até procuramos patrocínio em 2011, mas recebemos muitos nãos. Para continuarmos motivados, esquecemos de procurar patrocínios. E nunca nos faltou nada! O grande patrocinador são as pessoas que aparecem em nossa vida, em nossos caminhos. Temos a nossa religião e acreditamos muito nela. Temos uma fé incondicional no criador e na criatura. Apenas não divulgamos nossa religião, pois entramos em todos os projetos/ações independentemente da religião deles. Somos políticos a todo momento, as nossas relações são políticas do bem. O que não temos é um partido. Gostamos do nosso Brasil, inteiro.


Em breve, vocês vão começar a caçar bons exemplos fora do Brasil. Já definiram o roteiro? Há alguma expectativa do que vão encontrar de diferente daqui?
Vamos vender nosso carro para viabilizar nossa ida aos 49 países, em todos os continentes do mundo. Acreditamos que será muito difícil, pois o povo brasileiro é muito acolhedor e conhecemos muitas pessoas em nosso país. Fora do Brasil o desafio será muito maior. Mas não nos “pré-ocupamos” ainda...


Qual é o maior prazer que vocês sentem com esse trabalho?
Queremos provar que existem muito mais ações positivas no mundo e que as pessoas têm de conhecê-las e também buscá-las, para se inspirarem! Acreditamos que bons exemplos inspiram e todo retorno que temos de pessoas inspiradas nos motiva ainda mais a continuar. Não é fácil, mas foi uma escolha que fizemos e estamos muito felizes. Queremos sensibilizar e motivar as pessoas a agir, pois a mudança está em nossas mãos. "Seja a mudança que quer ver no mundo". E fica a pergunta para quem nos lê: Quem é um bom exemplo perto da sua casa, no seu bairro ou na sua cidade?