03 de janeiro 2018

Beleza na Cracolândia

projeto semana da diversidade
03 janeiro 2018

Beleza na Cracolândia

Mulheres ministram oficinas de autocuidado para usuárias de crack da região central de São Paulo
Texto por: Debora Stevaux

Um levantamento realizado pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (SEDS) em parceria com o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD) revelou que, de 2016 para cá, mais de mil mulheres passaram a viver ou frequentar a Cracolândia.

Como o próprio nome sugere, o termo que une as palavras crack e lândia é conhecido na capital paulista como a “terra do crack”, uma droga ilícita de alta concentração e toxicidade, que possui em sua composição cocaína, bicarbonato de sódio e outras substâncias. Os cristais amarelados são consumidos por pessoas que se aglomeram em cinco ruas, uma praça e uma estação da região central de São Paulo.

Os dependentes sofrem todas as consequências das drogas: não comem, sentem náuseas, têm dificuldades de construir pensamento, controlar impulsos e planejar a vida. Em alguns casos, sofrem de ataques convulsivos. Mas são pessoas que precisam de atenção e cuidado.

Assim pensam a assistente social, Carmen Lopes, 47, e a jornalista Gleymar Lima, 31, que idealizaram um conjunto de ações que começou no início de 2017, com o projeto Semana da Diversidade. No início, ocorriam encontros duas ou três vezes por ano para oferecer tratamentos de beleza e kits com produtos de higiene pessoal para as mulheres cis e trans da região central. “Agora estamos focando em realizar atividades integradas, como  oficinas de calcinha, em que as dependentes confeccionam suas próprias calcinhas, além oficinas de beleza. Nosso objetivo é levar autocuidado, para que elas mesmas sejam capazes de arrumar o cabelo, fazer as unhas etc.”, explica Carmen.  

Atualmente, projeto reúne a cada 15 dias grupos de 20 a 25 mulheres. “Elas gostam bastante, tanto que percebemos que são as mesmas que participam, porque essa frequência acaba criando uma relação de confiança”, revela. A Companhia de Teatro Faraoeste e trabalhadores da região são alguns dos apoiadores do projeto, que é realizado na Praça General Osório, localizada entre o “fluxo”, como é chamada a região onde concentra grande parte dos usuários de crack e a estação da Luz de trem e metrô.

As mulheres, com idades entre 20 a 40 anos, aprendem sobre empoderamento feminino na prática. A escolha da praça não foi feita à toa. “Várias pessoas frequentam aquele espaço, não somente moradores de rua. Pessoas que moram no bairro acabam se sensibilizando com as atividades que realizamos durante à tarde, das 13h às 17h, e acabam vindo participar. Isso é muito importante porque as pessoas têm muita dificuldade de enxergar o outro como um ser de direito, principalmente se ele está sujo ou malvestido”, diz a assistente social. As doações de produtos de higiene pessoal e de maquiagens são recolhidas por Carmen, que as recebe até das mãos dos doadores que entregam na sua própria casa.

Carmen acredita que o simples fato de oferecer oportunidade de escolha para aqueles que estão acostumados a se contentar com pouco ou quase nada. “Um dos momentos que mais me marcou desde o início foi quando eu vi uma mulher que caminhou em direção até a praça onde estava sendo realizada a atividade, ficou olhando para o fluxo que estava atrás. A prefeitura estava limpando aquele lugar. E ela ficou olhando para os dois lugares, como quem pensou: ‘Será que eu vou para a atividade ou vou para o fluxo?’. Ela olhou umas três vezes, numa indecisão enorme, e acabou decidindo ir para a atividade. Pode parecer óbvio ou desimportante para a maioria, mas oferecer a possibilidade de fazer escolhas para a população de rua é uma forma de resgatar a sua dignidade enquanto indivíduo”, dispara.

Além da necessidade de oferecer para a população de rua a possibilidade de ter alguma renda, para deixarem a vulnerabilidade social, Carmen também acredita que o dependente de crack é extremamente estigmatizado. “Eu procuro não ver com o estigma que as pessoas costumam colocar, de zumbi. Pela minha experiência como profissional, consigo conversar com ele, mesmo quando ele acabou de usar. Agora, é  muito mais difícil de conversar, de lidar, fazer uma intervenção com pessoas sob o efeito de álcool. É algo completamente controverso, porque bebidas alcoólicas conseguimos comprar em qualquer estabelecimento”, aponta. A partir do ano que vem, o projeto irá assumir novos formatos, como um blog que traz a história dessas mulheres que participam das oficinas e um projeto de mestrado de Gleymar sobre essas histórias.