09 de agosto 2017

As palavras têm força

As palavras tem forca
09 agosto 2017

As palavras têm força

Expressões e bordões utilizados naturalmente podem reforçar preconceitos e estereótipos
Texto por: Livia Deodato

Quem nunca se sentiu golpeado por palavras? A violência vai além dos limites físicos. Ela pode estar presente nos detalhes, na forma de se comunicar ou reagir a uma determinada situação. A violência simbólica, expressão definida pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, pode ser representada pelo uso de um padrão de linguagem que reafirma estereótipos, inferiorizam e discriminam um indivíduo ou um grupo sem que, muitas vezes, essa agressão seja percebida. Com frequência, é possível ouvir relatos do uso de palavras e bordões racistas, homofóbicos, xenófobos e sexistas.

Segundo a psicóloga e pesquisadora Valeska Zanello, esses termos espelham representações de valores da cultura em determinado momento histórico, mas com o passar do tempo são associados a outros significados. “É fundamental o estudo etimológico, porque é como se a palavra perdesse seu sentido original pelo uso exaustivo, mas nem por isso deixasse de se manter e propagar preconceitos”, afirma a professora que coordena o grupo de estudo Saúde Mental e Gênero, da Universidade de Brasília (UnB).

Expressões racistas

A História do Brasil fez com que muitas expressões utilizadas naquela época ainda hoje ressoem no linguajar sem que se note ou tenha noção de sua origem. Outras remetem de forma indireta a essa questão, camuflando um discurso racista persistente, mas velado e hipócrita. A diferenciação que se faz no emprego das palavras branco e preto (ou negro) é um exemplo disso. “Magia branca” é uma coisa considerada boa, assim como “inveja branca” tem um sentido amenizado. Já “magia negra” ou “situação preta” designam invariavelmente algo negativo, difícil ou ruim.

Existem outros inúmeros exemplos, que embora não utilizem a palavra preto/negro, têm cunho racista. Quando alguém diz que uma pessoa tem “o pé na cozinha”, ela está fazendo menção à época da escravidão, quando a cozinha dos senhores do engenho era o único local permitido e frequentado por mulheres negras.

Outra expressão recorrentemente empregada é “dia de branco” para designar geralmente a segunda-feira ou um dia de muito trabalho, o que implica na ideia de que a população negra, como era endossada pelos senhores de escravos, era preguiçosa. Denegrir é um verbo ainda mais comum de ser ouvido em uma conversa que se refere à reputação, quando se deseja dizer que a imagem, antes limpa, foi difamada.

E mesmo expressões que parecem não conter nenhuma referência explícita em sua construção têm uma carga preconceituosa tão grande quanto às citadas anteriormente. “Meia tigela” para fazer menção a algo sem valor é uma expressão que surgiu a partir de uma punição feita aos escravos que trabalhavam à força nas minas de ouro. Quando não conseguiam alcançar suas metas, eles recebiam apenas metade da tigela de comida. E que criança nunca aprendeu na escola sobre as cores e chamou o bege ou o rosa claro de “cor de pele”? O problema é que não existe uma única cor de pele, ainda mais no Brasil.

Há ainda termos racistas que são empregados especificamente para as mulheres negras, como “mulata tipo exportação”, para se referir a seus atributos físicos, ou “não sou tuas negas”, para contestar um destrato. Para piorar ainda mais todo esse sentido, mulata ou mulato, que muita gente usa como se fosse um eufemismo para dizer que alguém é de origem negra, começou a ser usado para se referir aos filhos de escravas com senhores em relacionamentos não consensuais e vistos como anormais. A origem da palavra é derivada de mula, filhote do cruzamento de cavalo com jumenta ou de jumento com égua.

Mulheres inferiorizadas e sexualizadas

Além do racismo, o machismo é um problema tão infiltrado e cultivado na sociedade, que frases e expressões de opressão feminina ainda são muito difundidas. “A misoginia é histórica na cultura ocidental. Começa com os gregos e vai ficando ainda mais rigorosa com o Império Romano e o cristianismo. Com o capitalismo, isso toma ares de uma crueldade enorme com a criação de uma divisão entre o âmbito público e privado”, explica Valeska, professora e estudiosa da questão de gênero. De acordo com ela, se até o século 18 predominava a teoria aristotélica, na qual se pensava a mulher como um homem que não se desenvolveu por completo, nesse momento há uma naturalização, a partir de diferenças físicas, de lugares sociais desempoderados.

As mulheres têm de digerir todos esses preconceitos que, de tão repetidos, passam a ser aceitos por elas mesmas como verdades. “Ficou de mau humor porque está de TPM” é um julgamento que banaliza problemas pelos quais a mulher pode estar passando.

Doses de machismo e misoginia também estão presentes em crenças que reduzem a competência da mulher em exercer certas atividades. Os ditados “mulher no volante, perigo constante" ou “mulher só sabe pilotar fogão” ilustram bem essa questão. O fato de ser mulher, obviamente, não reduz a capacidade motora necessária para dirigir ou faz com que deva obrigatoriamente saber realizar tarefas domésticas. “As lutas das mulheres, as lutas feministas, conjugadas à reorganização das relações de gênero na sociedade, têm confrontado as formas de desvalorização do feminino assim como algumas formas de valorização, como aquelas que colocam as mulheres como importantes na vida doméstica e na maternidade enquanto lhes recusam outras formas de participação e direitos”, reforça Flávia Biroli, docente de ciência política da Universidade de Brasília (UnB).

A frase "é melhor você chamar um homem para ajudar com isso" apresenta um reducionismo ainda maior de aptidões ao sugerir que as mulheres precisam do auxílio de um homem para fazer algum tipo de serviço. Há os que alegam que tudo não passa de uma brincadeira, piada de bar. “Acredito que muitas pessoas não têm consciência do que essas expressões significam e como surgiram, por isso é importante desnaturalizá-las. Geralmente, elas são utilizadas a partir de locais de privilégio e quem as minimiza como simples brincadeira não está do lado onde o ódio é destilado”, destaca a psicóloga.

Desde a infância, ouve-se que algo é “coisa de mulherzinha”, como uma reprimenda a meninos por agirem de maneira sensível, gostarem de objetos, cores ou tarefas supostamente relacionadas ao universo feminino. O homem que faz isso é frequentemente julgado como afeminado ou tem sua masculinidade ferida. “É importante colocarmos em xeque definições do feminino e do masculino que implicam restrições aos direitos e desvalorização das experiências plurais que constituem as sociedades contemporâneas.

A própria forma de xingar mostra como há diferenciação no que refere à visão de comportamento feminino e masculino na sociedade. Valeska, que estuda o tema há uma década, reflete sobre a questão em vários artigos e até em um TED. “O xingamento é uma forma de controle social que vem mostrar aos sujeitos que lugares eles não devem ocupar. E para as mulheres essas ofensas são sempre sexuais ativas”, diz ele. Segundo uma de suas pesquisas, enquanto as agressões verbais destinadas aos homens os afastam do padrão de virilidade, como “viadinho”, “boiola” e “corno”, as mulheres são ofendidas com palavras relacionadas a um comportamento de promiscuidade, como “vadia”, “piranha” e “galinha”, ajudando a perpetuar o machismo.

Até mesmo o órgão sexual feminino incute machismo em seu sentido. “A palavra vagina quer dizer bainha, isto é, o lugar onde se enfia a espada. Até o final do século 19, nós mulheres não tínhamos nomes próprios para as partes dos nossos corpos. Quase todos os termos relacionados a sexo, como foder, comer, passar a vara, são falocentrados e muito carregados de violência”, explica Valeska, a coordenadora de grupo de estudo que relaciona a saúde mental com questões de gênero.

Orientação sexual desvalorizada

Constantemente, pessoas LGBTQIA ouvem o termo “opção sexual”. Embora pareça correto, ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. É apenas sua orientação. Ao usar “opção” abre-se a possibilidade de interpretação de que gays, lésbicas, bissexuais e trans podem mudar a qualquer momento sua orientação, se quiserem. Homossexualismo é ainda pior porque está associada ao prefixo ‘ismo’, utilizado para designar doenças.

A expressão “vira homem” é usada para repreender uma pessoa do sexo masculino que não aja de acordo com o modelo esperado pelo imaginário coletivo: alguém forte, que não chora, inabalável e destemido. Da mesma forma “agir como uma mulherzinha” é um jeito utilizado para atacar uma pessoa, zombando de sua sexualidade. Para o escritor Gustavo Tanaka, esse tipo de abordagem, quando feita por homens, revela uma raiva em relação ao universo feminino. “O preconceito contra homossexuais e mulheres só existe por causa do masculino distorcido. Às vezes, a raiva que o homem sente da mulher vem do seu próprio feminino. Quando o homem entende seu lado feminino, ele dá espaço para a mulher na sociedade”, afirma.

Combate a estereótipos e preconceitos

A discriminação, em especial na questão sexista, às vezes é tão sutil que passa despercebida ou pode aparecer escancarada de forma a colocar as mulheres como uma subcategoria de ser humano. Como exemplo, quando se utiliza a palavra homem na História para falar da origem e desenvolvimento das civilizações. Ou quando se faz referência a uma profissão como se elas fossem composta apenas por homens (mecânicos e pilotos) e ao mesmo tempo reserva outras atividades apenas às mulheres (cozinheiras e manicures).

O sujeito indeterminado ainda é usado predominantemente no masculino, embora haja casos em que o “a” entre parênteses seja usado como uma forma de solucionar a questão e, mais recentemente, empregue-se o “@”, o “e”  e o “x”, como forma de neutralizar o gênero. A polêmica é antiga. Há mais de dez anos a UNESCO publicou um guia, com o objetivo de orientar as pessoas a eliminarem a discriminação que todas as línguas impõem.

“Quando usamos ou escutamos termos preconceituosos é essencial fazermos um contraponto, apontando ou desconstruindo essa invisibilidade. Nesse sentido o ativismo é muito importante”, reforça Valeska. As deformações de ideias precisam ser mudadas, pois a linguagem, se bem usada, tem poder enorme, consegue ajudar a combater desigualdades e servir como uma ferramenta de transformação social.