26 de dezembro 2017

As mulheres precisam falar de dinheiro

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26 dezembro 2017

As mulheres precisam falar de dinheiro

Uma conversa com Carolina Sandler, criadora do site Finanças Femininas, sobre empoderamento por meio do conhecimento financeiro.
Texto por: Rafael Nardini

Em dezembro de 2012 ela criou o maior site do Brasil para falar de dinheiro só com mulheres. Passados pouco mais de quatro anos, o Finanças Femininas conta com uma média de 500 mil pageviews mensais. A fanpage no Facebook tem 130 mil seguidoras e o canal no YouTube acumula quase 100 mil visualizações.

A educadora e consultora financeira Carolina Ruhman Sandler partiu de uma demanda reprimida e do machismo dos veículos de comunicação para criar seu próprio emprego. Em dezembro de 2012, quando o Finanças Femininas virou realidade, a internet brasileira para o público feminino, como relata Sandler, era apenas “moda, casamento, cabelo e maternidade”. Então, ela decidiu arregaçar as mangas e fazer sua parte para começar a mudar essa realidade. A saída? Falar de mulher para mulher, reconhecendo as inúmeras dificuldades que isso carrega. “No mundo de hoje, que não se tem mais essa história do provedor, não tem mais casal que consiga se bancar com a renda apenas de um, os dois têm de ler e se interessar por dinheiro. Daí pensei em falar de dinheiro para mulher, considerando as dificuldades específicas. A mulher tem menos tempo para tudo, com rendimento menor e mulheres com grau superior completo chegam a ganhar 35% menos que homens para os mesmos cargos. Precisava falar com elas reconhecendo essas dificuldades”, lembra.

De uma demanda prontinha para ser atendida veio o sucesso da empreitada. A CEO do Finanças Femininas e autora do livro "Finanças Femininas - como organizar suas contas, aprender a investir e realizar seus sonhos" pode comemorar uma impressionante média de 500 mil pageviews mensais e a parceria com o UOL. A página do Facebook já passa dos 142 mil seguidores. Além disso, sobra tempo ainda para Carolina gravar vídeos para o canal no YouTube, o podcast e coordenar a produção de conteúdo para SMS e TVs corporativas. Viu? As mulheres queriam mesmo falar de dinheiro. E encontraram quem está adorando essa ideia. “Não tem diferença entre homens e mulheres quando o assunto é dinheiro. Todos precisamos lidar com cartão de crédito, poupança, investimento, seguro, previdência, pensar na aposentadoria… Mas as mulheres têm barreiras estruturais históricas. Mulher só conseguiu ter CPF no Brasil em 1962. Antes disso, não era possível ter uma conta bancária individual sem a aprovação do pai ou do marido." 

Óbvio que o trabalho do Finanças Femininas é importante também por outro motivo: quebrar preconceitos e mitos que são reproduzidos pela imprensa, pelas rodinhas de conversa e por quem não tem o menor interesse em ver a equidade entre homens e mulheres. “O primeiro mito é que a mulher não entende de dinheiro. E isso simplesmente não faz sentido. Não dá para dizer que isso é verdade. As mulheres são responsáveis pelo orçamento de 74% dos lares brasileiros. Nos programas sociais, Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida, por exemplo, quem controla os benefícios são as mulheres, porque elas dificilmente abandonam casa, marido ou filhos. Ser bom com dinheiro não é ser bom de matemática”, comenta. "Outro mito é que a mulher é perdulária. É mentira. As mulheres gastam bastante porque compram as roupas dos maridos, as roupas das crianças, os presentes para a família. Muitas vezes, a última pessoa com quem as mulheres gastam é com elas mesmas. É um mito que facilmente cai por terra".

Os números apontam que as mulheres são mais empreendedoras que os homens brasileiros. Ela explica, no entanto, que isso não parte necessariamente de um desejo de empreender, mas da necessidade de fugir dos empregos sucateados e das enormes cargas desleais em trabalhos regulares. “Muitas mulheres empreendem por necessidade. Quando você empreende, não tem que esperar sua vez para ganhar mais, para ter um aumento. Então, o empreendedorismo é uma forma das mulheres assumirem suas agendas e serem capazes de ganhar cada vez mais dinheiro”,diz.

O fato de ser mulher e falar diretamente com as mulheres também traz uma empatia para além dos números. Por exemplo, Carolina se preocupa realmente com as finanças de suas leitoras. A dica, mulheres, é: poupe 20% do seu salário mensalmente. “Metade disso em investimentos de longo prazo, como aposentadoria, e metade para montar um fundo de emergência e fazer as outras coisas gostosas da vida. Dar entrada em um apartamento, fazer intercâmbio, uma viagem, o que quer que seja”, explica. Mas, claro, poupar não é um costume brasileiro. Imagina então entre as mulheres, que ainda recebem salários menores. “É difícil para quem nunca poupou começar poupar direto 20% do salário. Então, comece devagar, com gentileza consigo mesma. Comece poupando 5%, depois 10%, daí para 15%... Vá aos poucos e assim você garante e fica cada vez mais motivada para isso”. 

A consultora financeira acredita piamente que a independência financeira pode ser uma arma para as mulheres conseguirem garantir mais direitos numa sociedade ainda tão machista. “Quando você tem independência financeira, você consegue levantar e sair de um casamento no qual não está mais feliz. Quanto mais mulheres estiverem em cargos de liderança, menores são as chances de assédio e menores são as chances de que uma mulher ganhe menos que um colega homem pelo mesmo trabalho. Dinheiro é poder, não tem jeito”. E continua: “A mulher precisa bancar suas escolhas e não ter de pedir licença ou dinheiro emprestado para fazer alguma coisa. Quitar dívidas, falar de investimento, de poupança é, sim, dar condições para as mulheres saírem de uma condição de vulnerabilidade e dependência”. Não dá para discordar. As mulheres precisam falar cada vez mais de dinheiro.