17 de outubro 2017

As mulheres não conseguem dar conta de tudo

mulheres nao dao conta de tudo
17 outubro 2017

As mulheres não conseguem dar conta de tudo

Pesquisa mostra que as brasileiras estão sobrecarregadas porque são responsáveis por exercer os valores humanos na família e na sociedade
Texto por: Julliane Silveira

Os brasileiros se definem coletivamente e se sentem responsáveis pela atual  (e desconfortável) situação em que vivem. Percebe-se em todos o desejo de um futuro com relações mais solidárias, compreensivas e inclusivas. O valores sonhados por todas as pessoas, porém, sempre são associados ao universo feminino. Em todas as circunstâncias, são vistos como uma responsabilidade das mulheres e acabam restritos às relações domésticas.

Isso leva as mulheres a exercer uma dupla ou tripla jornada. Como elas estão ligadas a esses valores, a impressão é a de que todos esperam que elas resolvam as situações que envolvam acolhimento e cuidado.  A visão estereotipada de que só elas precisam cuidar, acolher e amparar aumenta em até quatro horas a sua jornada diária, em comparação com a dos homens. A carga aumenta em função do cuidado com os filhos, com a casa ou com outras pessoas (como pais ou sogros).

Essas informações fazem parte da pesquisa realizada por Molico com 1.000 brasileiros de todas as partes do país. Os entrevistados foram divididos igualmente entre homens e mulheres e têm entre 16 e 64 anos.

Não à toa, uma em cada cinco pesquisadas se sente sobrecarregada, 49% das mulheres afirmam que gostariam que o dia fosse mais longo e 51% delas desejam dividir o fardo com outras pessoas.

"Para criarmos uma sociedade mais humana, é preciso que todos possam se inspirar em homens e mulheres que sejam reconhecidos pelo exercício dos valores associados ao feminino. Mas isso nem sempre acontece”, diz Rachel Muller, diretora de marketing da Nestlé e uma das coordenadoras da pesquisa.

Leia mais

Elas cuidam mais

De fato, todos atribuem o cuidado a uma figura feminina. E mais: atribuem o desenvolvimento dos bons valores à figura materna. Por exemplo, os entrevistados apontaram a mãe, quando foram questionados sobre a pessoa que mais os ensinou a tratar bem os outros, oferecer ajuda a quem precisa e a ser cuidadoso com o próximo. Nos mesmos quesitos, a proporção de pessoas que mencionou o pai não passou de 20%.

Também foi a mãe a pessoa mais citada como referência para confiar nos outros, ajudar para que eles se sintam integrados em novos ambientes e dar um voto de confiança a alguém que errou.  Em segundo lugar, a resposta foi “ninguém”, com duas vezes mais citações do que o pai.

Elas também são mais requisitadas para amparar e acolher. Perguntados sobre a frequência com que servem de ombro amigo para alguém que precisa desabafar, 79% das mulheres respondeu "quase sempre". Entre os homens esse número cai para 63%. O mesmo acontece com relação a cuidar de pessoas doentes, como pais, amigos e parentes. Enquanto essa é uma atitude recorrente para 64% das mulheres, entre eles o índice não passa de 50%.

A compreensão de que todos podem – e devem - exercitar esses valores é fundamental para que relações mais respeitosas aconteçam em todas as esferas. Também é importante que outros espaços, além da casa, se tornem mais acolhedores e surjam novos personagens para representar os valores humanos, além das mulheres e das mães, em especial. É fundamental que todos se sintam agentes de promoção de um mundo mais inclusivo.