13 de outubro 2017

Amor, sexo e gêneros

Mary del priore
13 outubro 2017

Amor, sexo e gêneros

Em entrevista, a historiadora Mary Del Priore percorre os caminhos da igualdade dos sexos dentro e fora de casa
Texto por: Camila Luz

Mary Del Priore tem um dom especial para contar histórias. A historiadora já publicou 48 livros e ganhou dezenas de prêmios. Tanto sucesso é fruto da abordagem de temas que não dizem respeito somente aos especialistas da área, mas a todo o povo brasileiro.
Mary é ex-professora de história da PUC-RJ e da USP (Universidade de São Paulo). Fez pós-doutorado na França e foi colaboradora de veículos de imprensa nacionais e estrangeiros. De forma clara e direta, explora um tema pouco abordado pela academia: a vida privada dos brasileiros em mais de 500 anos de história.
Em entrevista, Mary relembra costumes do Brasil Colônia, fala sobre a libertação sexual da mulher e traça paralelos com a atualidade.

Na condição de país colonizado por Portugal, o Brasil herdou seus costumes e mentalidade. Como isso impactou a visão do amor e sexualidade durante o período colonial?
O que Portugal trouxe foi a Igreja Católica, que fez parte do seu projeto de colonização. O protestantismo estava ganhando muita força na Europa e havia uma luta. Então o Concílio de Trento, realizado em 1535, resolve valorizar a família. Foi uma forma de aglutinar Igreja, família e sociedade. Portanto, a Igreja vai se debruçar sobre o papel da mulher, do homem e do sexo.
A Igreja tenta normatizar o significado do sexo dentro do casamento.  Ela tenta purificar ao máximo e destituir essa relação de todo o aspecto prazeroso ou erótico. A procriação, o ato sexual em si, deve ser para a multiplicação da espécie. Praticar o ato com outro fim seria considerado uma sujeira. A Igreja dizia que o único beijo que podia ser dado sem pecado era na testa de uma criança. As posições sexuais também foram perseguidas. A mulher de quatro animaliza um ato que deve ser sagrado, a mulher em cima do homem também é pecado.
Isso cria uma dupla moral. Dentro do casamento, as relações sexuais com a esposa são desprovidas de erotismo. Na rua, com outras mulheres, a sexualidade é livre de regras, pois não é uma união ungida pela Igreja. Basta olhar para as poesias do Gregório de Matos e para os vários processos de adultério.

Quais foram as consequências para a mulher?
Houve uma valorização muito grande da mulher casada. Havia um papel social para a mulher casada e uma fragilidade social para a outra: a adúltera, a manceba. Até hoje o casamento tem significado, nem que seja para durar apenas dois dias. Há a aliança de casamento, a cerimônia religiosa. O divórcio foi aprovado apenas em 1977. Até então, a mulher desquitada era uma desgraçada, uma pobre coitada, alguém que não tinha conseguido dar conta do casamento. Para ter um papel social, as mulheres engoliam muito sapo.

Isso está mudando?
Eu diria que foi só a partir dos anos 1990, com a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho, democratização da pílula anticoncepcional e segurança material que elas conseguiram sair dessa situação de submissão. Até ali, a mulher deveria se casar. Para se manter casada, aguentava qualquer situação. As revistas femininas da década de 1950 recomendavam fechar os olhos para as escapulidas do marido, enquanto a mulher que traísse sofria uma série de consequências, como ser perseguida pela sociedade. Hoje isso mudou radicalmente e ninguém mais tem vergonha de se divorciar quando não está feliz. Mas por muito tempo significou muito sofrimento para as mulheres. 

Em “Histórias do amor no Brasil”, você percorre mais de 400 anos de práticas amorosas. Quando a mulher passou a ter mais liberdade?
Quando ela começa a usar a pílula. Lembro que o anticoncepcional não chegou como a última Coca-Cola do deserto. Houve muita resistência, muitas mulheres achavam que estavam sendo envenenadas, principalmente as mais simples. Elas acreditavam que a pílula fazia mal, esterilizava e que o casamento feliz devia ser com filhos. Com a adoção da pílula a mulher passa a controlar sua sexualidade. Os anos 1970 e 1980 foram de muito crescimento econômico. Houve uma entrada de mulheres no mercado de trabalho e a migração para as cidades. A mulher, da pobre até a rica, foi trabalhar e ganhar seu dinheiro. Com o sexo controlado e o dinheiro na mão, as relações dentro de casa começam a mudar.

E os homens? Como lidaram com isso?
O homem brasileiro ainda é muito machista e a mulher brasileira também continua muito machista. Eu bato sempre nessa tecla pois o complicador é esse. Ela é a primeira a criticar e também é capaz de violência contra outras mulheres.  Independente disso, a violência de gênero dentro de casa continua existindo. A diferença é que hoje a mulher já tem como resistir com o dinheiro que ganha e o controle da sua sexualidade. Não vai mais colocar cinco ou sete filhos no mundo, como sua mãe. Vai procurar educar bem as crianças. Hoje, quase 50% dos lares são chefiados por mulheres sozinhas. Isso faz parte de um processo de emancipação e empoderamento da mulher que vem ocorrendo nos últimos 20 anos.

Quando o amor realmente começou a fazer parte dos casamentos?
Eu acho que tanto a Segunda Guerra Mundial quanto o cinema americano, com as histórias do amor e os “happy endings”, geraram uma importação de modelos que impactou a representação do amor para os brasileiros. Além disso, com as modificações da sociedade brasileira em termos econômicos, as mulheres começaram a ter mais oportunidade de escolha.
Antes, elas precisavam escolher o marido em um grupo muito pequeno, entre os amigos da família. Quando começaram a entrar para as universidades e a frequentar clubes, nos anos 60 e 70, ganharam um espectro maior de possibilidades. O companheiro passa a ser escolhido porque há uma identidade afetiva, amorosa e sexual. Os sociólogos têm uma expressão para definir isso que se chama “igualia”. Até os anos 1930, os casais escolhiam em uma “igualia” muito restrita. Depois ela se ampliou e o amor ganha uma outra representação. Se ele dura ou não, é outra história.

Qual foi o período da história mais marcante para a sexualidade das brasileiras?
Eu acho que foram os anos 1980, quando os jornais e revistas começam a falar sistematicamente da violência contra a mulher. Não havia tanta informação antes, mas a partir dos anos 80 você tem crimes nacionais que vão se transformar em editoriais, em primeira página. Lembro sempre da morte da Ângela Diniz. Era uma moça mineira, de boa família, que foi assassinada por um rapaz rico e bonito, o [Raul Fernando] Doca Street. Foi um julgamento público. O mais impressionante foi que, apesar das fotos, apesar de todo mundo saber que foi um disparo à queima-roupa, ele foi aplaudido por mulheres na saída do tribunal.

Você acredita que já conquistamos uma igualdade entre os gêneros dentro de casa?
Na geração atual, isso mudou radicalmente. Primeiro, as mulheres estão trabalhando, não têm pressa para casar ou ter filhos. Elas têm projetos profissionais e exigem que algumas tarefas sejam compartidas. Mostro essas mudanças no livro “História dos Homens no Brasil”. O jovem hoje, que é pai com 20 ou 30 e poucos anos, quer participar. Ele vai ao hospital fazer o curso para aprender a dar banho e trocar fralda, acompanha o parto, sai para fazer compras, pratica yoga com a esposa. Há uma divisão de tarefas que antes não existia e os homens assumem novos papéis. Levam o filho à escola, participam de reuniões. No Dia dos Pais, toda a imprensa se encheu de matérias sobre como os pais participam da vida dos filhos. O que definiu essas mudanças foi o fato de a mulher ter mais estudo e melhores empregos. Isso permite que as negociações dentro de casa deem mais certo do que os conflitos.

A popularização da camisinha e do anticoncepcional mostra que estamos conscientizando melhor nossos jovens? Nos últimos dois anos, presenciamos epidemias de sífilis e HIV. Levando em conta a história do país, o que deveríamos estar ensinando aos jovens sobre educação sexual?
Nos anos 1930, momento de grande discussão sobre educação no país, havia manuais de educação para os jovens. Mas eles eram completamente diferentes para meninos e meninas. O manual dos meninos tinha desenhos do corpo humano, retratando o pênis e a vagina, e tudo era explicado em detalhes. As meninas só podiam ler se estivessem noivas e era tudo metafórico, não havia desenho nenhum. Ela praticamente tinha que adivinhar o que estava escrito ali. Mas havia uma preocupação. Havia mulheres que iam para a noite de núpcias sem saber nada. E a mulher que tivesse mais conhecimento era considerada uma perdida. Acredito que o que vai empurrar a educação sexual para dentro da porta da escola são as condições sociais. As taxas de gravidez na adolescência são elevadíssimas, sobretudo entre as camadas mais pobres da população. As meninas engravidam muito cedo porque não enxergam outro papel para elas. Elas têm auto-estima muito baixa e acreditam que não têm chances de sair da condição de miséria. O único papel social que as resta é o de mãe, não o de profissional. São as realidades sociais que vão impor à escola a necessidade de falar mais sobre a sexualidade. A pedofilia, por exemplo, existe no Brasil desde o século 16. Tudo tem que ser visto em uma perspectiva história.


No geral, o que conhecemos sobre a história do Brasil são os grandes acontecimentos. Por que você escolheu explorar a vida íntima do povo brasileiro?
Eu tive a oportunidade de fazer parte de uma geração de historiadores que voltou para os arquivos. Durante muito tempo, a história da universidade foi feita em cima de grandes sistemas explicativos. Essa volta para os arquivos, que se deu nos anos 1980, aproximou o historiador de uma documentação que falava justamente sobre a vida privada das pessoas. Estou me referindo à documentação sobre a inquisição e as visitas pastorais, que acabavam descortinando muito da vida cotidiana das pessoas, dos hábitos que elas tinham e das práticas com relação à sexualidade.

Você é uma historiadora de sucesso e já lançou mais de 30 livros. Nos últimos anos, outras obras sobre a história do Brasil ganharam espaço entre os best-sellers, como “1808” e “1822”, do Laurentino Gomes. Há um interesse crescente pelo assunto no país?
Certos historiadores dizem que o brasileiro não gosta de história, mas, pela minha experiência, ele adora. Mas o brasileiro gosta de uma história contada de maneira que ele entenda. Uma tese de doutorado com notas de rodapé, discussões teóricas, não interessa para o brasileiro mediano, que trabalha o dia inteiro e tem pouco tempo para ler.  Ele quer a história para grandes públicos. Tanto é que os livros de sucesso são aqueles que buscam uma linguagem mais fácil, para atingir as pessoas de maneira democrática. Eu sempre digo que a história do brasil tem personagens apaixonantes. Você vê tudo: amor, ódio, traição, falsidade. Isso atrai muito o público, ao mesmo tempo que é uma janela para o passado. Dá para olhar além do personagem e reconstituir cenários históricos e momentos políticos.

Você acredita que o melhor acesso do público à história do Brasil desmistifica preconceitos com relação a nossa cultura?
Eu acho que depende muito da sala de aula. O que aproxima a história do grande público é o professor. Acho que está faltando amor na sala de aula. O professor de história é muito mal pago, portanto não consegue transmitir o conhecimento de maneira muito interessante. É claro que existem exceções, mas o que falta são professores que sintam prazer em transmitir o conhecimento com exemplos. Basta sair na pracinha da cidade e mostrar: “veja, essa igreja foi de tal período histórico, o que estava acontecendo no Brasil naquela época era isso”. Transformar a aula em uma boa história.  Além disso, tanto o cinema brasileiro quanto a televisão tentam retratar a história de forma bacana, mas acabam fazendo verdadeiras caricaturas e ainda dão informações erradas. Desperta certa curiosidade, mas o espectador fica com uma impressão de que foi tudo uma palhaçada e não deveria ter sido assim. Por fim, lamento muito que a universidade brasileira tenha hoje mais de cem cursos de pós-graduação em história, mas as teses são ilegíveis para o grande público.