02 de janeiro 2018

Amor em Mechas

Amor em Mechas_Débora Vivaldi
02 janeiro 2018

Amor em Mechas

Débora Vivaldi se inspirou na sua própria história de vida, cheia de altos e baixos, para criar o Amor em Mechas, um projeto social que doa perucas para mulheres com câncer.
Texto por: Camila Luz

Desde os 15 anos de idade, Débora Vivaldi quer ser dentista. Quase realizou o sonho duas vezes: logo após o vestibular e mais recentemente, em 2015, já casada e com um filho adulto. Uma sucessão de altos e baixos não permitiu que concluísse a graduação. Mas sua trajetória a levou concretizar outro desejo: o de elevar a autoestima de mulheres que perdem os cabelos por causa da quimioterapia.

Ela é fundadora do Amor em Mechas, projeto social que se compromete a oferecer perucas gratuitas para mulheres que perderam as madeixas após serem diagnosticadas com câncer. A ideia surgiu quando a própria fundadora descobriu um tumor na mama e precisou passar por uma cirurgia, quimioterapia e radioterapia.

O diagnóstico veio em 2015, durante o Outubro Rosa, campanha anual de prevenção contra o câncer de mama. No ano seguinte, em um evento para pacientes oncológicas, ganhou uma peruca. O presente fez toda a diferença naquele momento, quando precisava de um empurrãozinho na sua autoestima. Enquanto o cabeleireiro cortava sua franja, decidiu proporcionar a mesma sensação para outras mulheres.

O Amor em Mechas nasceu em oito de março deste ano, Dia da Mulher. Até dezembro, o projeto já havia entregado quase 300 perucas. “Hoje, me dedico 100% ao projeto. Estou indo atrás de mais parcerias. Meu objetivo é que o Amor em Mechas vire um negócio social e eu possa viver dele. Esse é a ambição de muitos empreendedores hoje”, declara.

Altos e Baixos

O sucesso do Amor em Mechas é resultado da trajetória de empreendedorismo de Débora, marcada por resiliência, superação e muita vontade de fazer a diferença na vida do outro. “Eu me enxergo uma vencedora. Não digo que venci e acabou a batalha, pois ela continua. Mas sigo lutando sabendo que é possível”, afirma.

Aos 15 anos, decidiu trabalhar como auxiliar de dentista para colocar aparelhos nos dentes. Acabou se apaixonando pela profissão e decidiu prestar vestibular para odontologia. O processo não foi fácil: como os pais não tinham condições de bancar uma universidade particular, precisou estudar por alguns anos para entrar em uma pública. O estresse do vestibular a fez perder os cabelos, mas deu tudo certo. Cursou a graduação durante dois anos e meio.

No meio da faculdade, casou-se e engravidou. Foi preciso deixar o curso para trabalhar em parceria com o marido. Anos depois, ele decidiu que a família se mudaria para os Estados Unidos. No país, Débora deu seu primeiro passo como empreendedora. Após uma temporada trabalhando como faxineira e babá, abriu a empresa “We do it for you” com uma amiga, para prestar os mesmos serviços.

Os negócios iam bem e a família estava adaptada ao país. Mas em 2008, o pai de Débora sofreu um AVC. Por sorte, ela conseguiu chegar ao Brasil a tempo de vê-lo com vida. Naquele ano, os percalços não pararam por aí: na hora de voltar para os Estados Unidos, foi impedida de cruzar a imigração e foi deportada.

“Meu marido disse para não me preocupar. Ele e meu filho voltaram para o Brasil e fomos morar no Guarujá, onde a família dele tinha uma pousada”, relembra. No litoral paulista, a empreendedora começou a fazer parcerias com empresas de excursão para que os turistas se hospedassem no hotel. Ainda que o número de hóspedes estivesse aumentando, Débora não estava feliz. “Me sentia uma estranha no ninho e tive início de depressão”, revela.

Quando entrou para o Conselho de Empresárias do Guarujá, sua vida começou a ganhar um pouco mais de cor. A princípio, trabalhava como voluntária. Como todas gostaram muito do seu trabalho, foi convidada para ser gerente. “Só que na época, meu marido, muito ciumento, me disse para escolher: ou ele, ou o Conselho. Acabei optando pelo casamento. Foi uma pena.  Aquilo estava me ajudando muito emocionalmente, pois fazíamos muito trabalho beneficente”, explica.

Rede de apoio

Quando a família se mudou para São Paulo, Débora e o marido fundaram outra empresa: a  BioGrafite, focada em marketing digital. Na época, começou a participar de grupos como a Rede Mulher Empreendedora e a Escola de Você, voltados para a capacitação de empreendedoras. Com o apoio das outras integrantes, emagreceu 18 quilos em 14 meses e recuperou a vontade de seguir em frente.

Imersa nessas novas experiências, Débora descobriu que o primeiro lugar onde as mulheres apanham quando sofrem violência doméstica é na boca. Como o “sorriso contagia o ambiente”, decidiu que havia chegado a hora de retomar o sonho de estudar odontologia. Em 2015, passou a fazer as aulas da faculdade de manhã. À tarde, trabalhava na BioGrafite.

Em outubro, descobriu que precisaria interromper o curso para tratar o tumor na mama. “Quando recebi o diagnóstico de câncer em outubro, me perguntei por que aquilo estava acontecendo comigo”, relembra. Por causa da quimioterapia, desenvolveu uma condição chamada neuropatia nos dedos. Ela afeta os nervos periféricos e causa dor, prejudicando os movimentos. Para uma futura dentista, o diagnóstico seria uma sentença definitiva.

Débora nunca será dentista, mas tudo bem. “Olha, isso é triste, é uma coisa que me chateia. Em contrapartida, estou realizando meu sonho ao ajudar o próximo. Criar um sorriso, fortalecer a autoestima. São tantos depoimentos, tantas mensagens boas que recebo que isso acaba suprindo a falta da faculdade”, completa.

A empreendedora acabou se divorciando do marido. Hoje, ainda o auxilia na BioGrafite, mas seu objetivo recente é angariar mais patrocínios e parcerias para sobreviver do Amor em Mechas. “Meu maior sonho é que toda mulher com câncer ganhe uma peruca”, afirma. Para coletar os fios de cabelo utilizados, o projeto espalhou urnas por salões de beleza em todo o país. A Unimed do Ceará, por exemplo, adquiriu 20 urnas para distribuir nos salões da região. Já a loja de móveis Simonetti, presente em estados como Espírito Santo e Bahia, comprou 60 unidades.

A rede de apoio formada por Débora durante sua trajetória como empreendedora tornam o projeto possível. Além disso, as tantas relações construídas com outras mulheres dão força para se reerguer, mesmo quando tudo parece perdido. “Na semana que recebi o diagnóstico, por exemplo, amigas da Escola de Você me fizeram uma visita, pois eu estava muito chorona. Recebi um carinho muito grande. Eu acredito muito no poder das parcerias”, finaliza.