24 de julho 2017

AfroTranscendence

AfroTranscendence
24 julho 2017

AfroTranscendence

Projeto reúne artistas negros de todas as regiões, idades e gêneros
Texto por: Camila Luz

Os negros representam 53,6% da população brasileira, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). São maioria, mas ainda sofrem racismo diariamente e têm menos representatividade em muitas áreas, como a arte.

Para discutir essa realidade, a plataforma NoBrasil criou o AfroTranscendence, um projeto de imersão com foco na cultura afro-brasileira. Idealizado em 2015, o AfroTranscendence - ou AfroT, como ficou conhecido - é resultado de um trabalho de curadoria feito por Diane Lima,  diretora da NoBrasil, que percebeu a ausência do corpo negro nos espaços de arte.

“Ela viu que nós tínhamos representação, mas não representatividade”, conta Alessandra Gama curadora e mentora do AfroT e doutoranda em performances culturais na UFG (Universidade Federal de Goiás). “Isso significa que nossos corpos, nossa história, nosso patrimônio, sempre estavam representados nas instituições de arte por artistas não negros. É um jogo de presença e ausência”, completa.

A NoBrasil passou a questionar onde estão os artistas negros e de que forma a cultura afro-brasileira é representada por pessoas de outras etnias. O AfroT foi criado para conectar músicos, literatos, dançarinos e outros artistas com o objetivo de unir os saberes tradicionais e contemporâneos das culturas negras espalhadas pelo mundo.

O projeto

O AfroTranscendence já teve duas edições, em 2015 e 2016, em outubro. Uma nova edição está programada para 2017, mas ainda sem data definida. Sempre os artistas participam de um programa intensivo, que dura três dias, com palestras, workshops, laboratórios e vivências conduzidos por especialistas e pesquisadores.

Os eventos são produzidos por mentores que têm histórico de ativismo artístico e cultural. Eles são responsáveis por identificar artistas de diversas origens, gerações, gêneros e que atuam em diferentes áreas: artes visuais, artes gráficas, música, literatura, teatro, dança, cinema, memória, patrimônio cultural, entre outras.

“Há uma diversidade de linguagens e expressões porque os artistas são de regiões, idades e gêneros diferentes. Tudo isso gera um balaio muito grande de experiências que convergem e é isso que entendemos por experiência de imersão”, diz Alessandra.

Além dos eventos, o AfroT produz vídeos como  a websérie “AfroTranscendence” e o curta-metragem “Tempo de Cura”, que tratam de temas trabalhados pelo projeto, como traumas coloniais e os processos de cura que ocorrem pela arte.

Descolonizar o conhecimento

Para Alessandra, os brasileiros precisam entender que o Brasil é um país que ainda sofre com os fantasmas da escravidão.

“Temos um histórico colonial, de escravidão, que ainda reflete em muitas relações e práticas contemporâneas. Embora o discurso oficial e institucional negue o entendimento de que somos um país herdeiro desse processo, o cotidiano da população negra mostra que não há uma democracia racial no Brasil”, diz.

O primeiro ponto discutido pelo AfroT é, então, o racismo. “Gostaríamos de não ter mais que discutir o racismo no Brasil, mas ele é perverso nas nossas relações. Também discutimos o oposto disso, que são as fortalezas do nosso processo de construção de identidade cultural”, explica. “A gente não fica estagnado no racismo, mas é importante entender o artista negro como pessoa no mundo”.

Na visão de Alessandra, sempre que se discute cor de pele, há um adjetivo que indica diferença. E a sociedade ainda tem dificuldade para admitir os processos e dificuldades enfrentadas pela população negra.

Outra questão discutida pelo AfroT é a construção da cultura afro-brasileira, que é muito fragmentada. Diferente dos imigrantes europeus, os africanos passaram por uma diáspora, foram separados durante a vinda para o Brasil e tiveram seus corpos mutilados. Então não há uma linearidade como ocorre com descendentes de italianos, portugueses, espanhóis ou alemães.

“Queremos costurar, bordar essa colcha de retalhos, encontrar quais foram os núcleos familiares que se preocuparam em preservar as referências culturais para que tivéssemos hoje o acesso ao repertório da cultura africana”, explica Alessandra.

Para a curadora, os brasileiros reconhecem que há uma riqueza na cultura africana, mas a fossilizam e a reduzem a um período da história. Assim, o negro é colocado como uma peça de museu, como alguém a ser representado, e não como o protagonista da sua própria cultura.

“Parece um discurso cansativo, batido. Os negros nunca irão se cansar de falar sobre a escravidão e os processos coloniais? Mas as pessoas não negras não vão perceber sua responsabilidade e conivência, a não ser que vistam nossa pele”, diz.

O “vestir a pele” significa enxergar a cultura afro-brasileira a partir do ponto de vista de seus próprios integrantes, e não a partir de uma representação exótica, como se fossem personagens do folclore que usam roupas coloridas e dreads no cabelo.