22 de novembro 2017

A vítima não quer ter razão

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22 novembro 2017

A vítima não quer ter razão

Queremos o direito de poder falar sobre nós mesmas
Sobre o autor: Stephanie Ribeiro

Arquiteta e Urbanista, ativista feminista e escritora. Acredita no papel fundamental do ativismo negro interseccional e que temas adjacentes à experiência da mulher negra no mundo precisam ser difundidos. Em 2015, recebeu da Assembleia Legislativa de São Paulo a Medalha Theodosina Ribeiro, como homenagem ao seu ativismo em prol das mulheres negras.

Texto por: Stephanie Ribeiro

Arquiteta e Urbanista, ativista feminista e escritora. Acredita no papel fundamental do ativismo negro interseccional e que temas adjacentes à experiência da mulher negra no mundo precisam ser difundidos. Em 2015, recebeu da Assembleia Legislativa de São Paulo a Medalha Theodosina Ribeiro, como homenagem ao seu ativismo em prol das mulheres negras.

Participei recentemente de um debate com um homem que promove rodas de conversa sobre masculinidade com agressores enquadrados na Lei Maria da Penha. Ele disse em sua palestra que percebe que seu trabalho está surtindo efeito quando esses homens gritam, dizem-se oprimidos pela ausência de uma “Lei João da Penha” e até saem com raiva. Segundo ele, é o incômodo que mostra que o sujeito está reagindo ao que foi dito, é a reação que demonstra que o trabalho dele está sendo efetivo e que o leva continuar. Acredito que nós, feministas, negros e todas as minorias, estamos alcançando efeitos significativos na nossa luta, dada tantas manifestações de incômodo vindo de pessoas que se dete privilégios estruturais.

A mais recente dessas manifestações de incômodo e tentativa de silenciar movimento sociais é a classificação de que toda manifestação virtual feita por pessoas negras é um “linchamento virtual”. Mesmo em um país em que de fato negros foram linchados por serem negros, pessoas em sua maioria brancas se mostram totalmente temerosas ao perceber que negros estão se manifestando coletivamente.

Ainda que as ações de repúdio nasçam de forma orgânica, muitos as enquadram como manifestações de uma “gangue virtual” pronta para “destruir racistas”. Recentemente, quem sofreu o tal “linchamento virtual”, segundo essas pessoas, foi o jornalista William Waack. Mesmo que ele tenha sido filmado se manifestando de forma racista, uma série de pessoas brancas, de esquerda e de direita, se manifestaram em sua defesa e contrárias às manifestações de repúdio que ele estava sofrendo.

Nessas horas penso em Sueli Carneiro dizendo que, entre a esquerda e a direita, ela continuava sendo preta. Waack virou meme, posts de facebook e teve seu vídeo compartilhado em forma de denúncia. A vida real dele não foi colocada em risco, o máximo que ele sofreu foi um afastamento do seu posto profissional. Um acontecimento que é uma ação da empresa, tendo em vista que ele foi pego sendo racista e era o âncora de um jornal que leva o nome da rede.

No campo legal, ações estão sendo pedidas - e nada mais que justo, pois racismo não é erro, racismo é violência. A vida de qualquer negro no Brasil é marcada pelo fato de que, a cada 23 minutos, se rifam nossos corpos, almas e saúde física e mental. Fato que parece não incomodar tanto a branquitude brasileira.

Talvez o ego dos exaltados tenha sido atingido com a possibilidade de serem os próximos denunciados ou com o incômodo de ver as críticas aos grupos raciais e sociais que fazem parte ganharem visibilidade. Os humilhados estão sendo exaltados, como diria minha avó, e isso causa uma dor tão grande que até um jurista como Ives Gandra se diz sem saber como viver no Brasil por ser discriminado ao não fazer parte de nenhuma minoria: “Não sou nem negro, nem homossexual, nem índio, nem assaltante, nem guerrilheiro, nem invasor de terras. Como faço para viver no Brasil nos dias atuais?”

Ao ler as palavras desse homem, parece que dados como o de que negros são 63,7% dos brasileiros sem ocupação trabalhista são meras miragens do IBGE. Chega a ser risível como, mesmo que as mudanças estruturais caminhem a passos lentos para nós, pessoas brancas estejam incomodadas de forma tão visceral com o mero fato da nossa disputa de narrativa já estar negociando nossa humanidade e dignidade.

Vejo, inclusive, muitas mulheres brancas apoiando as denúncias hollywoodianas, enquanto no próprio país se alinham a agressores para manutenção das suas relações afetivas e de amizade. Nós, mulheres negras, estamos sempre na vanguarda, afinal se a base da pirâmide se movimenta, ela atinge até o topo. Estamos na linha de frente, mas cotidianamente nós, negros, somos taxados como identitários, como se nossa identidade fosse a exceção e não a regra num país de maioria negra.

Não aceito que qualquer opinião que eu dê seja vista como manifestação de linchamento. Não aceito regredir porque os homens brancos estão incomodados. Nós que somos tidos como as vítimas, as minorias, não queremos razão, muitos menos a bênção de um homem branco para nosso ativismo. Nós queremos o direito de poder falar sobre nós mesmas, direito esse que nos é negado pelos supostos corajosos que, no fundo, só querem defender seus direitos.