01 de julho 2017

A urgência do diálogo entre homens e mulheres

A urgência do diálogo entre homens e mulheres
01 julho 2017

A urgência do diálogo entre homens e mulheres

A antropóloga Carolina Roxo fala sobre o acúmulo de funções que angustia a mulher brasileira e muito mais
Texto por: Redação o Valor do Feminino

A antropóloga Carolina Roxo fala sobre o acúmulo de funções que angustia a mulher brasileira, os riscos de um feminismo que exclui os homens da conversa e a necessidade de encontrar um meio do caminho para que todo mundo se realize mais.

Desde o início de sua carreira em publicidade, há mais de 20 anos, antropóloga Carolina Roxo tem se dedicado a entender o universo feminino. Conduziu, em 2013, um curso chamado “Afinal, o que querem as mulheres?” na Casa do Saber, um espaço que oferece cursos de curta duração de artes, humanidades e temas contemporâneos, em São Paulo. À frente de sua empresa, a Roxo Atelier, ela acompanha estudos nacionais e internacionais sobre o comportamento feminino e conduz pesquisas para marcas. Recentemente, ela concluiu que já não é mais possível entender as mulheres sem ouvir os homens. Nas entrevistas que fazem parte de seu trabalho, ela acaba descobrindo sutilezas de pensamentos e atitudes, além das angústias das pessoas com quem conversa. Com base nesses depoimentos, constatou que hoje em dia há um movimento segregador entre homens e mulheres, como se o valor de um só pudesse existir em detrimento do outro. Isso, em um momento do mundo em que para resolver os dilemas modernos, precisamos claramente de união e colaboração.

Durante sua pesquisa com o universo masculino, que angústias você descobriu que os homens têm?
Eu estava fazendo um trabalho focado em valores do feminino. Como parte dele, colocamos na internet um desafio para as pessoas: fazer um desenho e escrever alguma coisa sobre como você sente que a mulher é retratada hoje na propaganda, em geral. A princípio, queríamos pegar só respostas de mulheres, mas usamos uma plataforma que não selecionava o gênero. No fim, vieram imagens incríveis dos homens. Como eles veem a mulher retratada, como também ficam indignados, como se sentem tratados versus o tratamento que recebem as mulheres. O resultado foi tão rico que, na etapa seguinte do projeto, entrevistamos grupos de homens. Não só para olhar as mulheres através da lente deles, mas para entender como eles têm se sentido. Concluímos que ninguém está se entendendo nessa história. Os homens se sentem perdidos com essa nova mulher, e as mulheres esperam coisas dos homens que não mudam do dia para a noite. Hoje não consigo mais fazer trabalho sobre o feminino sem falar com homens. Não é vocês, homens. É nós, homens e mulheres juntos. Falta esse equilíbrio, e isso acaba impactando no jeito que o homem e a mulher se sentem.

O que significa “essa nova mulher”?
Existe uma evolução feminina, representada pela mulher entrando com mais força não só no mercado de trabalho, mas estudando mais, tendo maior peso na política.

O que a surpreendeu nas conversas com os homens?
Senti que o homem está muito perdido sobre como agir. Com essa nova postura da mulher, num primeiro momento, você olha para a sociedade brasileira atual e pensa: “Está superlegal, tudo resolvido”. Mas não é bem assim. Porque os valores não acompanham essas mudanças. A cultura, no sentido sociológico, que inclui todas as tradições e valores por trás do que você faz e fala, não acompanha essa mudança. A gente ainda vive numa sociedade muito machista. O Brasil é muito tradicional, conservador. Claro, você tem pessoas que estão mudando essa mentalidade. Mas se olhamos para o grosso da população, ainda temos uma violência doméstica enorme. Quarenta por cento da violência contra a mulher que existe no Brasil, inclusive que leva à morte, vem de dentro de casa. Isso é muito sério.

Como isso impacta nos comportamentos?
Às vezes você ouve um discurso, mas quando olha o que está por trás, os valores ainda são muito tradicionais. Veja os homens. Eles falam que é muito legal que a mulher esteja participando mais da sociedade. Ele realmente apoia esse avanço. Só que na hora em que conversa mais profundamente com eles, entende o que estão sentindo. Aparecem coisas como: ”Nossa, vou ser honesto com você: acho estranho essa coisa de mulher ganhar mais dinheiro. A gente não se sente bem. Nós somos criados para ser o chefe da casa, para ser o provedor”. Alguns homens estão cuidando mais da casa, topam isso para a mulher sair para trabalhar. Mas, no fundo, eles não estão à vontade. Não é que ele não concorde. É uma sutiliza. Lá no fundo é como se homem não estivesse cumprindo seu papel, como se não se sentisse capaz.

E qual o ponto de vista da mulher?
A mulher também acaba sofrendo. Por quê? Culturalmente, está arraigada a ideia de que uma boa mulher é a que dá conta de estar com os filhos e com a casa cuidada. Ela pode até se revoltar por estar com muito trabalho, mas ela mesma às vezes não consegue abrir mão disso. Ela se incomoda quando o homem vai fazer o trabalho doméstico e faz de um jeito que ela não gosta. Tem homem que fala: ela até pede para eu ajudar, mas tudo que a gente faz está errado. “Não segura neném direito”, “lava mal a louça”. Na terceira bronca, eles param de fazer. É muito louco esse processo. Racionalmente há questões que parecem bem resolvidas, mas emocionalmente a própria mulher se sente mal se não está fazendo o papel tradicional dela na casa. Então, por um lado, há uma evolução enorme e, por outro, a mulher se boicota em alguns momentos. Existe também um movimento de volta ao que era antes. Uma parte das mulheres que conseguiram conquistar coisas e cargos agora começam a pensar que querem mais tempo para estar com os filhos e em casa. Nas classes sociais mais baixas, vemos uma mulher que faz a conta e conclui que não compensa. Temos depoimentos de mulheres que foram para o mercado e tiveram que pagar uma pessoa para cuidar dos filhos e da casa. Um desses casos, por exemplo, foi o de uma mulher que conseguiu o emprego de secretária que sonhava, mas a conta não fechava e ela não acompanhava o crescimento dos filhos. Colocando isso na balança, elas, em geral, voltam para casa. Muitas mulheres tentaram encaixar o trabalho em suas vidas tornando-se pequenas empresárias. Trabalham mais perto dos filhos. O empreendedorismo feminino está forte também por conta disso.

Esse dilema é mais brasileiro ou é universal?
A mulher brasileira tem um traço de querer ser boa em todas as esferas. Mas isso é impossível. A [antropóloga] Mirian Goldenberg fez uma pesquisa com mulheres na Europa. Ela tem uma teoria de que a mulher brasileira é a que acumula. É a teoria do “e”. Boa esposa e boa profissional e boa mãe e bonita. Nessa pesquisa com mulheres europeias, ela viu que lá elas são muito mais a teoria do “ou”. Se meu valor está no trabalho, é nisso que vou apostar. Não dá para ser uma ótima profissional sendo também ótima dona de casa. E está tudo bem.

Como o feminismo aparece nas suas pesquisas?
Há um movimento de as mulheres não aceitarem alguns gestos masculinos mais tradicionais como pagar a conta e abrir a porta do carro. Alguns homens falam que às vezes só querem fazer uma gentileza. Não significa que a mulher não pode fazer aquilo. Apenas faz parte do masculino ser gentil. Um deles disse que quase apanhou uma vez porque quis pagar conta da mulher, mas tratava-se só de uma gentileza, não mais que isso. Uma coisa é dar valor ao feminino e às mulheres quererem mais conquistas, reconhecimento. Outra é o feminismo meio exacerbado que é quase contra o homem. São coisas que vemos até em meninas mais jovens. Em grupos de meninos, eles falam que às vezes ficam sem graça porque as meninas estão contra. Eles querem ajudar, mas não sabem como. Elas se fecham e falam “vocês, homens”. Fui uma vez em um evento que discutia o papel das mulheres no mundo contemporâneo e, quando abriu para perguntas, um homem levantou a mão e falou: ”Olha, queria saber como nós, homens, podemos ajudar nesse movimento”. A mulher disse: “Se vocês começarem por estuprar menos, serem menos machistas, melhor’. Bom, acabou, né? É sutil, mas tem um quê de “agora é a nossa vez”, como se fosse mulher versus homem.

Como encontrar o equilíbrio?
Saímos da época da ombreira, quando a mulher usava ombreira para sair de casa. Tinha até sutiã de ombreira, olha que loucura. Existe um estudo que mostra que determinada geração de mulheres engrossou a voz. Teve o momento de incorporar valores masculinos. Agora acho que estamos em um momento de exacerbar os valores do feminino. Mas precisa ter um equilíbrio. Às vezes, você acaba fazendo uma coisa em detrimento da outra, quando se tem muito o que conviver. A partir do momento em que valorizamos uma coisa em detrimento da outra, isso é um problema. Não temos que ter caixinhas.

As empresas e as marcas estão mudando o jeito de se comunicar, incorporando mais valores femininos? Há de fato uma mudança na postura?
Há uma evolução sim. Algumas marcas estão buscando esse olhar diferente para os valores femininos. Houve um movimento na propaganda que foi do estereótipo da dona de casa, lá atrás, aí veio a questão da beleza, das mulheres independentes e depois houve uma fase que foram muitas marcas falando da “supermulher”. Virou o estereótipo ao contrário. Saiu da boa esposa e boa mãe para o estereótipo de mulher que dá conta de tudo. É preciso tomar cuidado com isso. E parte da solução é aceitar a fragilidade da mulher, que não dá conta de tudo.

Temos estereótipo de homens nas propagandas também?
Sim, os homens falam: “Você acha que eu também não me sinto cobrado?” Propaganda que mostra homem com carrão, bonitão, seduzindo todo mundo, “acha que a gente é assim?” .“Acha que nos bares que vamos são aquelas mulheres de propaganda de cerveja que sentam na nossa mesa? No bar em que eu vou só tem homem”. Existe uma cobrança para ser legal, bonito, pegador.

Como você enxerga essa questão do feminino? Tem a ver com biologia ou é uma construção cultural?
Quando você estuda antropologia, a base é que a maior parte dos comportamentos são construções sociais e culturais. Se você nascesse em outro lugar do mundo com outra família, seria outra pessoa. Antropologia tem um determinismo cultural enorme. Mas estudo outras perspectivas. Por exemplo, até pesquisas científicas mostram o quanto o biológico é fundamental. O seu DNA, a sua origem. Há coisas que biologicamente você tem mais propensão mesmo. Mas não estou propondo uma discussão de gênero. Até porque tem inclusive gente que nasce e não sabe o que é – se homem ou mulher.

Sobre a autora:
Marcela Bourroul É jornalista formada pela USP. Trabalhou por três anos na revista Época NEGÓCIOS, da editora Globo, onde se dedicava à cobertura de economia, política e negócios. Também passou pelas redações de Crescer e Pequenas Empresas & Grandes Negócios, da mesma editora. Sua primeira experiência como jornalista foi no jornal O Estado de S. Paulo, onde ficou um ano.