04 de setembro 2017

A sensibilidade para tempos implacáveis

A sensibilidade para tempos implacáveis
04 setembro 2017

A sensibilidade para tempos implacáveis

Marcianos dão muita importância ao trabalho e às conquistas e venusianas gostam de conversar e compartilhar emoções. Esse é o mote do livro de auto-ajuda “Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus”.
Texto por: Redação o Valor do Feminino

Marcianos dão muita importância ao trabalho e às conquistas e venusianas gostam de conversar e compartilhar emoções. Esse é o mote do livro de auto-ajuda “Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus”.

O best-seller era bem intencionado — ajudar casais a se relacionar de uma maneira mais saudável —, mas reafirmar estereótipos de gênero e insistir nos binários guerra versus amor e razão versus emoção, na verdade, não é nada revolucionário e tampouco colabora para solucionar crises a longo prazo. Se as diferenças são vistas como inevitáveis, uma transformação plena parece inviável: dividimos, assim, o mundo em mulheres sentimentais e homens insensíveis. Mas mulheres também dão muita importância às suas conquistas e homens também são sensíveis — e sabem sensibilizar.

Será que homens são tão diferentes de mulheres assim? Ou somos todos seres humanos com algumas diferenças biológicas, mas, sobretudo, com uma esmagadora diferença na socialização? Veja bem, nem sempre foi assim. Um estudo científico publicado recentemente na aclamada revista Nature apontou que no começo da civilização humana (também conhecida como pré-história), existia a não tão utópica igualdade de gênero. Depois de analisar dados de duas populações de caçadores e coletores no Congo e nas Filipinas, os cientistas concluíram que esse negócio de arrastar a mulher pelos cabelos não passa de historinha de gibi e que a igualdade entre os gêneros pode ser um dos importantes fatores que nos diferencia dos nossos parentes primatas. Nas Filipinas, inclusive, as mulheres caçavam e eram responsáveis pela colheita enquanto os homens cuidavam das crianças. Hoje sabemos que não há diferença entre cérebros de homens e cérebros de mulheres.

Ou seja, muito do que o senso comum toma como fato sobre diferenças entre homens e mulheres não faz sentido. Por exemplo: enquanto hoje muitos homens zoam o colega por usar roupas cor de rosa, até os anos 1920 a cor era considerada masculina e era símbolo de status e nobreza. Conclusão? Os valores mudam com o passar dos anos e com as mudanças pelas quais passa a sociedade.

Em pleno 2016, a desigualdade entre os gêneros ainda é gritante: mulheres são as maiores vítimas de estupro e violência doméstica, ganham 30% a menos que os homens, representam menos de 10% das cadeiras na Câmara de Deputados e apenas pouquíssimas chegam conselhos de direção das empresas. Mas não há dúvidas de que avançamos algumas posições nos espaços de poder, somos maioria no ensino superior e vamos à luta.

Masculinidade tóxica e saúde mental

Pouco a pouco, os estereótipos de gênero vão se quebrando e não sobra lugar para o machão que é incapaz de lavar as próprias roupas, demonstrar o que sente e lidar com seus problemas sozinho. Não só porque esses homens parecem cada vez mais desinteressantes, mas também porque é um comportamento tóxico para todos.

Ao negar a sensibilidade, os homens perdem tudo o que ela significa: a propriedade de sentir compaixão, ter empatia, sentir plenamente as emoções. Justamente as armas para combater a masculinidade tóxica. Em nome do machão que “não leva desaforo para casa”, é ciumento, controlador e não aceita a independência feminina, mulheres apanham, são rejeitadas, filhos são abandonados… Mas não só. Os próprios homens pagam um preço caro.

Hoje, estudos na área de psicologia e sociologia indicam que estereótipos como “seja macho” e “homem não chora” prejudicam o crescimento profissional dos homens e até afetam sua saúde mental. Em agosto de 2016, tivemos uma demonstração trágica de como a pressão para ser o provedor unida a uma desatenção à saúde mental colaboraram para que um homem matasse a mulher e os filhos e se suicidasse em seguida no Rio de Janeiro.

De fato, muitas tragédias poderiam ser evitadas se qualquer pessoa, independente de gênero, pudesse colocar a atenção em seus sentimentos e abrir o coração sem ser considerada “mulherzinha”, frágil ou menos digna. Desde que nascem, os homens são ensinados a serem “durões”, são estimulados a entrar em lutas, são apresentados como “garanhões” que dão em cima das menininhas ainda bebês e, se chorarem na escola, vão sofrer um bullying pesado e receberão apelidos como “maricas”, “bichinha” ou “emo”. Por que demonstrar sentimentos automaticamente significa homossexualidade?

Porque isso está atrelado ao feminino e homens gays são estigmatizados justamente por escapar dos extremos desse binário masculino/feminino. Para muitos homens, fazer “coisas de mulher” é uma vergonha porque mulheres são vistas por eles como inferiores. Isso não apenas é misógino como também é completamente incorreto e acaba sufocando ainda mais os homens — que são ensinados que somente mulheres podem ser abertas às suas emoções.

Não por acaso, em todas as partes do mundo os homens se suicidam muito mais do que as mulheres e chega a ser a principal causa de morte para homens com idades entre 15 e 44 anos em alguns países. A sociabilização masculina é voltada para o analfabetismo emocional e reconhecer que há uma falha na “máquina” automaticamente é lido como sinal de fraqueza e fracasso. Guardar emoções conflitivas não é saudável e deixar de procurar ajuda por medo de demonstrar fragilidade é a receita para o desastre. Pensando nisso, o atleta australiano de crossfit Khan Porter fez um apelo para que homens cuidem melhor da saúde mental.

A fim de bagunçar os binários de gênero, Porter levantou um peso de 120 kgs enquanto dançava o hit Single Ladies da Beyoncé acompanhado de um texto sobre masculinidades e emoções. “Como alguém que tem experiência com problemas de saúde mental, sei como é difícil para um homem buscar ajuda para algo que muitas vezes é desprezado como ‘ser bichinha’ ou ‘pau mole’. Assim como é OK para os homens dançarem, é OK que eles tenham batalhas mentais e emocionais às vezes também”, escreveu Porter.

Quebrar esses padrões de gênero não é tarefa fácil, mas dá para começar pensando sobre suas emoções, abrindo-se para compartilhar sentimentos e problemas emocionais, cultivando a empatia e buscar ajuda profissional caso seja necessário.

Por exemplo, quando você perceber que está sentindo uma emoção forte como tristeza, raiva ou vergonha, pare e reflita por que você sente isso, qual é a origem. Fale abertamente a respeito dessas emoções com quem você confia e tentem entender juntos qual é a melhor forma de lidar com elas. Pare de pensar que terapia é para pessoas “problemáticas” e considere a opção de falar com alguém especializado. Quando ficar irritado com alguém, tente se colocar no lugar do outro, o que pode ter colaborado para ele agir dessa forma? Exercite a compaixão. E lembre-se: bancar o machão não faz bem para ninguém.

 

Sobre a autora:
Gabriela Loureiro é jornalista, mestre em Gênero e bolsista do programa Chevening. Gaúcha de origem, tem coração em São Paulo e endereço em Londres. Foi repórter na Abril, editora na Globo e hoje trabalha como freelancer. Adora uma cerveja acompanhada de um bom papo, é obcecada por comportamentos que desafiem padrões e nunca provou um queijo e não gostou.