02 de janeiro 2018

A pele da flor

a flor da pele
02 janeiro 2018

A pele da flor

Tatuadora atende gratuitamente mulheres que fizeram mastectomia e querem esconder as cicatrizes
Texto por: Livia Deodato

Enfrentar uma mastectomia deixa marcas emocionais e físicas. Para ajudar a amenizar aquelas que ficam na pele, a tatuadora Flávia Carvalho criou o projeto  A Pele da Flor, que consiste em tatuar sobre as cicatrizes do pós-operatório. Essa iniciativa, voluntária e gratuita, tem devolvido a autoestima para as mulheres que lutam contra o câncer de mama. Inspirada no projeto americano Pink, que oferece tatuagens gratuitas para mulheres mastectomizadas, Flávia decidiu fazer a versão brasileira há cerca de um ano e meio.

Desde então, cerca de 40 mulheres já foram atendidas. Houve também o caso de um homem trans, que foi operado por conta das fortes amarrações que fazia para esconder os seios. Flávia tatuou até mesmo os mamilos para ele. Na maioria dos casos, trata-se da primeira tatuagem. Por esse motivo, as clientes sempre pedem algo mais discreto quando chegam ao estúdio de Flávia, que fica em Curitiba, “só o suficiente para cobrir a cicatriz”. “Depois de um tempo, elas pegam ‘gosto’ e quase sempre voltam para aumentar a tattoo”, diverte-se.

MastectomiaIV

Flávia não recebe nenhum apoio financeiro ou doações para realizar o trabalho. “Isso é uma escolha minha, visto que o projeto não é só um ‘trabalho voluntário bonitinho para eu me sentir bem’, mas sim uma ação de cunho político e social, que faz parte da minha militância feminista”, escreveu em sua página do Facebook.

Homem trans

Os desenhos que serão tatuados são discutidos em conjunto, de modo que eles sejam adequados ao perfil de cada uma. A maioria das mulheres que chega até Flávia pedem desenhos florais, de pássaros ou borboletas. Uma das histórias que mais a inspirou e a comoveu desde que iniciou o projeto foi a de duas irmãs que tiveram câncer de mama no mesmo período e decidiram lutar juntas contra a doença. “Depois do tratamento, as duas vieram tatuar comigo”, relembra.

Faz sete anos que Flávia tatua profissionalmente. Antes disso, ela cursou Ciências Biológicas na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e trabalhou com ilustração científica. “Tornar-me tatuadora foi uma luta e uma conquista numa área dominada por homens. Então é muito gratificante trabalhar com o que amo”, afirma. “Sempre quis trabalhar com arte, sempre foi parte de mim.”

 PROJETO A PELE DA FLOR - 6 golpes de arma branca - a cicatriz fica extensa devido à cirurgia de emergência]