02 de outubro 2017

A misoginia e o universo LGBT

misoginia e LGBT (1)
02 outubro 2017

A misoginia e o universo LGBT

As pessoas discriminam mais os homossexuais considerados afeminados
Sobre o autor: Alexandre Putti

Alexandre Putti é jornalista com experiência nas editorias de justiça, política e cultura. É autor do livro-reportagem “As Travas da Prisão”, que retrata o cotidiano das mulheres transexuais no sistema prisional masculino. LGBT com muito orgulho, ele acredita na revolução por meio do conhecimento.

Texto por: Alexandre Putti

Alexandre Putti é jornalista com experiência nas editorias de justiça, política e cultura. É autor do livro-reportagem “As Travas da Prisão”, que retrata o cotidiano das mulheres transexuais no sistema prisional masculino. LGBT com muito orgulho, ele acredita na revolução por meio do conhecimento.

Aos 15 anos, resolvi contar ao meu pai sobre a minha sexualidade. Ele era o único da família que não sabia sobre essa questão tão importante da minha vida. Quando contei, o protocolo a que a maioria dos LGBTs é submetida quando se assume foi seguido à risca: ele quis me bater, me colocar para fora de casa, me deserdar e me apagar da vida.

Depois de alguns meses de conselhos de amigos e psicólogos, meu pai finalmente resolveu me “aceitar”. Então, ele me chamou e disse: “Eu o aceito. Porém, não quero que você se torne um viado e, sim, um gay”.

Naquele momento, eu não entendi muito bem o que ele queria dizer. Para mim, gay e viado eram a mesma coisa. Fingi que entendi e concordei com ele, pois não queria ser expulso de casa.

Os anos se passaram, eu me mudei do interior para a cidade de São Paulo, entrei na faculdade e foi só nesse momento que eu comecei a conviver com outros LGBTs. A partir daí, entendi o que o meu pai havia me dito naquela ocasião.

Pode parecer estranho, mas a sociedade divide os “tipos” de LGBTs. Ser gay, mas não ter jeito de gay, pode. É um comportamento até admirado por alguns. “Olha, que lindo”, “Nem parece gay”, “Que desperdício”. “Tem de ser muito macho mesmo”.

Mas, se você é um gay afeminado, que carrega trejeitos femininos, a situação muda completamente. O machismo dominante em nossa sociedade joga os gays afeminados para a inferioridade e reproduz uma situação semelhante à que é enfrentada pelas mulheres.

Com as mulheres transexuais, esse cenário só piora. As pessoas não entendem o que a identidade de gênero representa e enxergam nelas o maior grau do feminino que um homossexual pode atingir. A sociedade vê, ali, um homem que “optou” por deixar seu lugar de privilégio para se tornar uma “mulherzinha”, como se isso fosse sinônimo de fraqueza.

E você acha que esse tipo de preconceito só é praticado pelos heterossexuais? Pois acredite que, infelizmente, não.

Em qualquer aplicativo de relacionamento, você consegue enxergar essa misoginia presente entre os LGBTs. Fiz uma experiência antes de escrever este texto e, a cada cinco perfis, três se descreviam como “discreto” e “não curto afeminados”. “É uma questão de gosto”, diziam eles.

Essa “questão de gosto” pode ser explicada pela cultura heteronormativa a que somos expostos. Nas novelas e na mídia em geral, os gays afeminados são sempre colocados como um objeto de chacota. É o cabeleireiro expansivo que é amigo da personagem principal ou o vilão que representa a bicha má.

A existência desses personagens não seria nociva se o universo LGBT não fosse representado apenas dessa maneira. Ela reforça a ideia de que o gay afeminado é um palhaço. A sociedade e a mídia nos fazem acreditar que o nosso papel social é somente entreter as pessoas. Mas não: nossa voz e nosso jeito não vão definir o que somos e o que queremos ser.

Por esses motivos, na verdade, o que meu pai quis dizer naquele dia é que eu posso até dormir com outro homem, mas não posso me parecer com uma mulher. A maior parte da sociedade não se importa com quem você se relaciona (isso não inclui a bancada religiosa e seus seguidores), mas se incomoda com a imagem que você passa.

Parecer “mulherzinha”, falar “fino” ou andar rebolando são características vistas como inferiores por serem atributos que remetem ao universo feminino. Ora, existe outro nome pra isso que não misoginia?

Estamos vivendo um momento revolucionário. Pabllo Vittar, Liniker, Rico Dalasam, entre outros artistas que fogem do estereótipo masculino, têm dominado a conjuntura musical. Várias empresas começaram a apoiar a causa LGBT, mas ainda temos um extenso caminho pela frente.

O dia em que eu vir gays afeminados, travestis e transexuais assumindo cargos de poder, sendo representados, de fato, pela mídia, e não morrendo todos os dias, realmente vou acreditar que a sociedade está em transformação. Por enquanto, seguimos ocupando o lugar de coadjuvantes dentro da sociedade e da comunidade LGBT. Lutemos para mudar essa realidade.