31 de outubro 2017

A importância de ressignificar nossas relações

being erica
31 outubro 2017

A importância de ressignificar nossas relações

Olhar para dentro e nos percebermos como seres falhos, mesmo com as melhores intenções, é o que nos permite humanizar aqueles que erram conosco
Sobre o autor: Laura Pires

É graduada em Letras pela UFRJ, fez mestrado na mesma instituição sobre a análise dos discursos de amor que circulam na sociedade e como afetam a maneira de viver relações amorosas. É uma das cofundadoras da Revista Capitolina e hoje escreve principalmente sobre relacionamentos. Ama pessoas, queijo e silêncio, acredita no poder da comunicação e se considera cientista social de si mesma.

Texto por: Laura Pires

É graduada em Letras pela UFRJ, fez mestrado na mesma instituição sobre a análise dos discursos de amor que circulam na sociedade e como afetam a maneira de viver relações amorosas. É uma das cofundadoras da Revista Capitolina e hoje escreve principalmente sobre relacionamentos. Ama pessoas, queijo e silêncio, acredita no poder da comunicação e se considera cientista social de si mesma.

Vivemos tempos de extremos, de amor ou ódio e para sempre ou nunca mais. Se estamos insatisfeitos, descartamos; se erram conosco, nos afastamos. Assim seguimos, como se a solução para tudo fosse o corte. É uma maneira defensiva de lidar com o mundo e não enfrentar problemas. 
Aceitamos que tudo que nos incomoda é externo e, assim, não olhamos para dentro. Em decorrência disso, afetamos negativamente todas as nossas relações. Olhar para dentro e nos percebermos como seres falhos, passíveis de erros, mesmo com as melhores intenções, é o que nos permite também humanizar aqueles que erram conosco. É essa empatia, conosco e com os demais, que nos permite perdoar e reconfigurar relações.
Havia uma série canadense fantasiosa chamada “Being Erica”, na qual a protagonista tinha um monte de questões mal resolvidas. A série consistia na terapia de Erica: ela era literalmente enviada ao passado. Ela voltava, com a cabeça de hoje, a situações difíceis e tinha oportunidade de vivenciá-las novamente por uma nova perspectiva. Erica aprende muito sobre si mesma nesse processo. Momentos em que se viu como injustiçada tinham nuances que ela não tinha maturidade para entender na época. Nos contextos em que sentia que poderia ter feito outra coisa, ela aprende que, mesmo fazendo diferente, só podia controlar as próprias ações - mas não os próprios sentimentos e as ações e sentimentos dos outros.
Sempre pensei nessa série como metáfora. Como seria se nós, hoje, com tudo que somamos de experiências, com tudo o que mudamos, tivéssemos a chance de visitar situações do passado que nos fizeram sofrer de alguma forma?
Embora a vida não nos permita visitar o passado literalmente como Erica fazia na série, a gente tem sim como abrir essas portas e recontextualizar nossas vivências. Exige autocrítica, disposição para encarar coisas que nem sempre queremos a nosso respeito e aceitação de que o que passou passou. Por mais que possamos recontextualizar o passado, não temos como mudá-lo. O que fizemos com os outros e o que fizemos com aquilo que fizeram conosco não vai mudar nunca.
Acredito que, exceto naquelas relações em que uma pessoa é claramente abusiva com outra (por exemplo, não vamos relativizar estupro, agressão etc.), não existe vilão e vítima. Mesmo que muitas vezes a gente se sinta vítima de uma situação ou de uma pessoa, aquele é apenas o sentimento que surge naquele contexto de espaço e tempo, não é representação da realidade
As realidades são diferentes para cada pessoa e, via de regra, todo mundo está tentando, todo mundo está dando seu melhor. Infelizmente, nem sempre conseguimos nos entender e aí nos magoamos e destruímos relações de afeto por pura inabilidade de lidar com discordâncias e pontos de vista distintos.
Podemos tentar ser mais compreensivos com as pessoas, não de um jeito permissivo que cria desculpas para que possam fazer conosco qualquer coisa e nós perdoarmos. É no sentido de entender que, boa parte das vezes, nossas mágoas são fruto de nossas próprias expectativas, carências e anseios, não resultado direto de fatores externos. É também entender que todo mundo está por aí vivendo por meio de tentativa e erro. Ninguém sabe o que está fazendo. E às vezes a gente se esbarra e dói, sai mancando e demora a conseguir voltar a andar normalmente. Mas, se a gente quiser mesmo, uma hora passa.
Não estou dizendo que você precisa perdoar todo mundo que o magoou na vida e voltar a se relacionar de maneira próxima com essas pessoas. Há, na verdade, uma série de opções. Você pode trabalhar isso sozinho, apenas dentro de você, sem a pessoa ficar sabendo. Você pode perdoar, mas não reatar laços, por entender que é uma dinâmica que, por motivos seus, não funciona para você. E você pode até reconstruir uma amizade, considerando um novo contexto, em que tanto você quanto a outra pessoa estão em outro momento e podem se harmonizar melhor agora. 
É tudo fugaz e episódico, no entanto. Esses entendimentos não são necessariamente soluções definitivas. Mas o que quero frisar é que rompimentos também não o são. As relações de afeto às vezes funcionam por um tempo e aí se afastam e se reconfiguram e é isso. Não podemos achar que o papel das pessoas de quem gostamos é ser o que queremos que elas sejam. As pessoas de quem gostamos não existem para servir às nossas necessidades e carências. Temos que saber diferenciar o que é gostar de uma pessoa como ela é e o que é gostar do que alguém é capaz de fazer por nós.
Amadurecer e poder revisitar o passado com outros olhos, tal como Erica, é uma experiência muito interessante de autoconhecimento. Sobre o passado, não há nada que possamos fazer. Mas o que aprendemos fica e pode ser usado para experiências futuras.