01 de julho 2017

A escuta como ato revolucionário

A escuta como ato revolucionário
01 julho 2017

A escuta como ato revolucionário

Precisamos olhar mais adiante — porque as aparências, que antes enganavam, atualmente ensurdecem.
Texto por: Redação o Valor do Feminino

O século XXI parece ser o melhor momento para ser escutado, mas o pior para escutarmos. Na era do exibicionismo digital e do “descarrego de ódio” que muitas vezes encontramos nos comentários internet adentro, a aparência é supervalorizada e a intolerância é generalizada: todo mundo fala e é dono da verdade, mas nem todos realmente ouvem. Estamos nos tornando surdos para tudo aquilo que não é sobre nós?

Por outro lado, a revolução digital nos abriu portas e mais portas para nos libertarmos da exclusividade informativa dos meios tradicionais de comunicação. A informação se tornou mais democrática e passamos a ter mais chances de nos desvencilhar dos padrões sociais e das caixas cheias de normas retrógradas em que tentam nos encaixar — lá onde homem não pode chorar e mulher ainda tem dificuldade para poder atuar profissionalmente na área que quiser.

Presenciamos, então, o nascimento de uma série de movimentos para que as minorias fossem ouvidas. Agora, mulheres gordas estão quebrando paradigmas; a mulher trans tem conquistado um espaço que, ao que tudo indica, continuará aumentando; e o movimento LGBT seguirá crescendo de mãos dadas com os princípios da ativista caribenha-americana Audre Lorde: "A visibilidade que nos torna mais vulneráveis é também a fonte de nossa maior força."

Sem que percebamos, os filtros-bolha da internet podem nos encerrar em mundos em que todo mundo concorda, todo mundo pertence ao mesmo grupo social e todo mundo chegou a um parâmetro que pode até se assemelhar à paz mundial — principalmente se você saiu dando unfollow em todos os seus contatos dos quais discordava nas últimas eleições. Porém, fora dos algoritmos, a vida tem tons de voz que talvez você ainda não tenha ouvido. E aí você pode até se perguntar: mas eu estou pronto para ouvir aquele que é tão diferente de mim?

Tenho a impressão de que nunca estivemos todos tão a par de nossas diferenças, mas também tão por fora de nossas semelhanças. Usamos o que nos difere como desculpa para afastamentos e nos esquecemos que podem ser também as diferenças uma potente força-motriz para que nos aproximemos de forma mais legítima. Aquilo que nos distingue do outro é uma ferramenta social fortíssima se soubermos utilizá-la. E para transformar a lógica do afastamento, antes de tudo, é preciso parar e escutar — e escutar, principalmente, quem nunca teve voz: seja sua filha, a primeira mulher que está sendo entrevistada para fazer parte de uma empresa com 90% de funcionários homens ou a lutadora de judô que conquistou o ouro nas últimas Olimpíadas.

Precisamos olhar mais adiante — porque as aparências, que antes enganavam, atualmente ensurdecem. Acionamos com frequência um olhar no piloto automático e muitas vezes julgamos o próximo sem nem perceber. Queremos todos, no fim das contas, sermos ouvidos, mas, para isso, precisamos aprender a ouvir.

O espírito do nosso tempo convida à mudança e deixamos aqui um convite à prática: na próxima vez em que esbarrarmos nas diferenças, vamos, antes de julgar, tentar "ouvir além das palavras", sem automaticamente reproduzir clichês? É sobre estarmos mais a serviço da audição e menos reféns de nossos pré-conceitos; é sobre nos colocarmos mais no lugar do outro e, assim, praticarmos a comunicação não-violenta. E, para isso, também podemos conectar o processo da fala ao processo da escuta como uma forma de incentivo. Porque depois de ouvirmos, aí sim poderemos falar.

"Pode falar quem tem esperança, e vice-versa", já dizia a epígrafe de autoria do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein que encontrei, dia desses, em um livro do escritor húngaro Péter Esterházy. Se estivermos abertos a ouvir o próximo, devemos saber que ele tem esperanças de poder falar e, consequentemente, de ser ouvido. Independentemente do contexto ou histórico, lembre-se que desde sempre é da opressão querer nos calar e da esperança querer que falemos.

Quando nos comunicamos, temos a oportunidade de deixar claro como estamos nos sentindo. Baixamos a guarda — e isso envolve um punhado de vulnerabilidade e bravura. Porque, nos dias de hoje, falar sobre aquilo que verdadeiramente nos pertence e nos acolhe é um ato de coragem. Mas é o escutar — com todos os significados que o verbo nos liberta — que é um ato revolucionário. Em tempos de distúrbio, ninguém tem o direito de nos tirar essa sensibilidade.

Sobre a autora:
Renata Losso é jornalista, paulistana com descendência espanhola e lésbica. Mantém uma rotina de inquietudes e estudos literários na USP e sempre sai de casa com um caderno, algumas canetas e um livro recém-começado; nunca se sabe.