01 de julho 2017

A confiança no outro em tempos incertos

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01 julho 2017

A confiança no outro em tempos incertos

Estamos sempre negociando na bolsa de valores da confiabilidade: queremos minimizar riscos e aumentar a segurança de nossas trocas sociais.
Texto por: Redação o Valor do Feminino

Há quem diga que comunicação e abertura para conversas são essenciais para uma relação — seja de qual natureza for —, mas é, inegavelmente, a confiança que dá significado para essa troca. É a crença no que está sendo compartilhado que torna o conhecimento mais potente. Sem ela, a troca de informações não passa de um simples amontoado de palavras.

O conceito de "confiança" vem da união de con (juntos) e fiança (dar crédito). Na prática, é sobre acreditar no outro, mas também na gente. Pode, afinal, quem não acredita em si mesmo expandir esse voto de confiança para alguém? E mais: seria a confiança um traço genético ou um uma virtude alcançável? Em seu livro “The Moral Molecule: How Trust Works”, o neuroeconomista Paul Zak argumenta que mulheres são mais confiáveis que homens já que têm maior produção de ocitonina, hormônio responsável por desenvolver apego e empatia entre pessoas. Mas será que essa divisão faz sentido nos dias de hoje, em que os valores passam a assumir um caráter universal, independente de gênero?

Para além dos cromossomos, estamos todos à maré da confiabilidade: ora somos confiáveis, ora podemos derrapar; ora cremos plenamente naquele amigo, mas vez que outra ficamos com o pé atrás. A filósofa Onora O'Neill fala em confiabilidade, passando pelo crivo de três análises: competência, honestidade e confiança.

Mesmo com as três peneiras, ainda é possível julgarmos se tal pessoa é digna de confiança através de aspectos particulares. Explicamos: para O'Neill, é plenamente possível que você tenha um amigo, por exemplo, que é competente e honesto, mas não confiar a ele o envio de uma carta importante, já que é esquecido.

Talvez você nem perceba, mas flerta a todo momento com a confiança e a descrença: abre o jornal logo pela manhã e, ao ler uma matéria, dá credibilidade ao jornalista que a escreveu; quando vai democraticamente às urnas, seu voto de confiança é na competência de um representante; ao viajar de avião, acredita que o piloto é a melhor pessoa para estar lá, naquele lugar, naquele momento; ao fechar um negócio confia na palavra do outro. Quando a confiança é escassa, damos a matéria como mentira, desconfiamos do político, voamos com medo, recorremos a contratos, promessas e acordos.

Estamos sempre negociando na bolsa de valores da confiabilidade: queremos minimizar riscos e aumentar a segurança de nossas trocas sociais. Para isso, segundo a teoria da redução de incertezas, criada em 1975 pelos pesquisadores de comunicação Charles Berger e Richard Calabrese, buscamos e analisamos informações sobre quem nos interessa para construir a confiança. Seja de maneira ativa (perguntando a alguém), passiva (observando à distância sem qualquer ação) ou interativa (abordando a pessoa em questão), usamos esses recursos com um único fim: reduzir dúvidas.

Ficou mais complexo confiar, é verdade. Desconfiamos do cenário político, estamos inseguros com a situação econômica e até ficamos reticentes com aquele amigo que conta histórias no churrasco de domingo ou com a colega que só posta fotos de viagens incríveis em sua conta no instagram.

A confiança no outro está em declínio?

Mesmo em tempos incertos, confiar no outro nunca esteve tão em voga. Vivemos a era do capital da reputação. Reviews positivos são o ativo mais importante de anfitriões no AirBnbRecomendações de usuários e motoristas podem definir nossas caronas no Uber Pool. Avaliações no DogVacay nos ajudam a escolher com quem deixaremos nossos pets naquele final de semana em que não poderemos levá-los.

Rachel Botsman, especialista em economia colaborativa, diz que a confiança vai mudar completamente a maneira como vivemos, trabalhamos e consumimos. Para Rachel, esse novo movimento não é só sobre transações financeiras, mas sobre empoderamento: "Trata-se de conferir poder às pessoas para que realizem conexões significativas. Conexões que estão nos habilitando a redescobrir a humanidade que perdemos em algum lugar ao longo do caminho". Essa nova onda dá mais valor às relações pessoais do que a meras transações vazias, em que o principal lastro é o dinheiro.

Oferta e demanda estão a serviço de uma enorme mudança de valores. Estamos parando de consumir com o objetivo de ter mais coisas que o vizinho e começamos a consumir para conhecer o vizinho. Queremos voltar às práticas relatadas por nossos pais e avós, em que depositar confiança nas pessoas abria infinitas possibilidades de uma convivência mais pacífica e colaborativa — na porta ao lado, uma mão para cuidar dos filhos em dias de aperto, um ingrediente que falta para o bolo e, quem sabe?, até um possível amigo. Pode parecer ingênuo, mas o simples começa a ganhar roupagem de imprescindível e iniciativas como o Tem Açúcar? aparecem para buscar essa reconexão com o outro.

Confiar é como aquela janela de tempo que a gente fica frente ao mar frio e revolto, decidindo se entra ou só contempla, enquanto entusiasticamente nos acenam, já da rebentação, para que a gente se apresse. São os minutos que respiramos profundamente e acessamos aquele velho sentimento que nos diz que ficará tudo bem. Superada a incerteza, seguimos em frente.

Porque o correr da vida embrulha tudo, já dizia Guimarães Rosa: ora aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que a vida quer da gente, afinal, é coragem. E confiança — de que o mergulho, mesmo que gelado, ainda valerá a pena.

Sobre a autora:
Gabrielle Estevans é jornalista, editora de conteúdo e coordenadora de projetos com propósito. Certa feita, enamorou-se pela palavra inefável. Desde então, também mantém uma lista de pequenas coisinhas indizíveis.