02 de outubro 2017

5 temas do documentário “Nunca Me Sonharam”

nunca me sonharam
02 outubro 2017

5 temas do documentário “Nunca Me Sonharam”

O filme discute a situação da educação pública no Brasil, com foco em jovens de dez estados brasileiros
Texto por: Debora Stevaux

Lançado em junho deste ano, o documentário “Nunca Me Sonharam”, assinado pela produtora brasileira Maria Farinha Filmes, traz a realidade do Ensino Médio público no Brasil.

A produtora é a primeira na América Latina a conseguir o selo de Empresa B, certificação para empresas que usam o poder dos negócios para fomentar discussões sobre as possíveis soluções para problemas sociais e ambientais.

Com fotografia singela e roteiro consistente, especialistas da área da educação, gestores, professores e os próprios adolescentes de dez unidades públicas dos rincões do país  — de Cocal dos Alves, no Piauí, a Porto Alegre, no Rio Grande do Sul —, expõem a problemática da falta de investimento na formação da juventude brasileira. O protagonismo é deles: na maior parte da película de uma hora e meia, os jovens falam sobre si mesmos, sobre o sistema e como encaram toda a pressão e a delícia da descoberta do “que querem ser quando crescer”.

Segundo o artigo 205 da Constituição Brasileira de 1988, a educação é um “direito de todos e dever do estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.” Hoje a educação é tratada realmente como um direito no Brasil? A partir dessa reflexão,  reunimos abaixo cinco temas apresentados no filme que são cruciais para entender a educação pública no país.

1. A formação da identidade na adolescência

Há uma série de estudos científicos sobre a construção da identidade durante a adolescência. Na primeira parte do documentário, chamada de “Tempestade e Trovão”, especialistas se debruçam sobre o assunto e reforçam a teoria do psicanalista alemão Erik Erikson, de que a tarefa mais importante da adolescência é a construção da própria identidade. O processo ocorre pela possibilidade infindável de fazer escolhas e de descobrir o novo — o que torna essa fase muito difícil, mas ao mesmo tempo deliciosamente inesquecível.

As várias possibilidades abrem as portas da experimentação, onde correr riscos é algo natural e importante para a construção de limites. Em geral, na cultura brasileira não há rito de passagem da infância para a adolescência e da adolescência para a vida adulta. Alguns especialistas presentes no documentário entendem que o Ensino Médio desempenha esse papel. Como lidar com essa legião de jovens apaixonados pelo real, como eles mesmos se caracterizam durante a obra, se a maioria das pessoas que lhes servem de espelho não respondem à altura? O filme convida a refletir que eles têm  muitos sonhos e uma quantidade incontável de novas ideias, mas poucos se propõem a escutar.

2. Não existe apenas uma juventude brasileira, mas juventudes brasileiras

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), oito em cada dez jovens estudam em escolas públicas e dois em cada cinco estudantes estão na região sudeste. Portanto, é imprescindível pontuar que se tratam de diversas juventudes brasileiras, que possuem anseios, desafios e oportunidades diferentes.

A Universidade de São Paulo divulgou que o número de estudantes vindos de escolas públicas que ingressaram na instituição aumentou de 32% para 35% de 2014 para 2015. Mas, mesmo que haja um progresso nesse sentido, a diferença ainda é gigantesca. Especialistas acreditam que o direito de fala e o direito de escolha são potentes catalisadores para a transformação, e talvez essa seja uma das principais pautas da juventude que frequenta escolas públicas. Ela deseja o acesso democrático ao ensino superior, a imensa vontade de reivindicar seus direitos e participar do agora.  

Para ser livre para inventar a própria narrativa, a juventude precisa de tempo para sonhar, o que pode parecer algo elementar para jovens e pais de classe média, mas não é. De acordo com um estudo realizado pelo Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI), o número de crianças e adolescentes que trabalham cresceu 4,5% no ano de 2014, sendo que a mais da metade  tem entre 16 e 17 anos.

Crianças que trabalham têm mais chances de abandonar a escola o não fazem isso por vontade própria, mas para ajudar os pais na renda familiar. Como os jovens podem ser livres para inventar as próprias narrativas, como é colocado no documentário por especialistas, se não são livres para estudar e pensar sobre isso? Falta tempo e oportunidade para sonhar, para ocupar novos espaços. “Quando vai chegar a nossa vez?” é o questionamento contundente de uma das adolescentes

3. A falta de perspectiva e a evasão escolar

Se a infância sofre um processo de encurtamento pela necessidade de integrar o mercado de trabalho, a educação para a juventude mais desfavorecida deve possuir um caráter puramente instrumental, isto é, para servir para um ofício, uma profissão. “É a versão mais simples e acaba por gerar compressão da adolescência e da infância, além de produzir a sequela psicológica do encurtamento dos sonhos, matar o futuro”, diz o documentário. Um dos adolescentes deixou ainda mais claro sua angústia sobre a vulnerabilidade social que está inserido: “Eu vivo sem ter certeza do que vai me acontecer amanhã, tento planejar, mas não sei. O que a gente vai ser? Está jogado à sorte.”

A maioria dos educadores do documentário revelou que não se atualiza há tempos. “O conhecimento estrutural é muito desagradável, qual é a maneira de tornar agradável? Os professores e coordenadores não receberam uma formação para trabalhar com jovens e adolescentes, uma mentalidade que veio dos anos 1930. Como fazer diferente se não fomos ensinados a fazer diferente?”, pontua uma das educadoras.

Uma pesquisa encabeçada pela organização sem fins lucrativos Todos Pela Educação concluiu que 62% dos jovens que abandonaram a escola têm entre 15 a 17 anos de idade. Os motivos para a evasão escolar, para além da necessidade de trabalhar, muitas vezes, giram em torno da gravidez e do tráfico de drogas.

4. “A sociedade brasileira precisa ser uma sociedade de conhecimento”

A educação é colocada como a porta de entrada para outros direitos. Não há como conseguir garantir o direito à saúde e os direitos políticos quando não é possível entender a sociedade em que vive. Por isso, a educação é uma ferramenta de transformação tão poderosa, capaz de construir tantas mil possibilidades, o que justifica seu valor intrínseco. Muito se estigmatiza o jovem periférico, “pouco interessado, displicente, violento”, dizem, mas ignoram o fato de que esse adolescente está buscando, de que não existe ninguém na escola que não queira nada. “Ele certamente pretende ser alguém na vida, vê nos pais a vida sofrida que levam.” Portanto, é fundamental que a população se questione: Em que escola essas crianças estão? Que tipo de educação essas crianças estão recebendo?

É com base na redução das imensas desigualdades que a escola precisa atuar, com uma transformação que aconteça de fora para dentro, para evitar que esses adolescentes entrem no mercado de trabalho de forma precoce e precária e para que eles saiam das instituições melhores do que entraram.  A desvalorização da educação faz com que se abra mão de um projeto de sociedade que seja capaz de colocar o Brasil no século XXI de forma interessante e inovadora. E não existe uma escola perfeita e emancipatória de verdade numa sociedade opressora.

5. Remando contra a maré

Mesmo com muitas dificuldades, os educadores não medem esforços para proporcionar aos alunos uma experiência educativa de qualidade, por acreditarem que é possível fazer a diferença em condições adversas. “Para uma escola ser atraente, é necessário esquecer o conceito de escola tradicional e investir na relação de troca, quebrando essa relação medieval. “Temos muito a aprender com eles”, disse um dos professores que acredita que o rendimento está diretamente ligado à diversão.

Um dos educadores entrevistados se organizou para realizar um sábado cultural com as turmas. “É dessa forma que ganhamos a sociedade, o aluno, todos saem ganhando”, explica ele, que completa: “A maior mediocridade é pensar pequeno demais, com isso vi até onde eu poderia chegar.” Uma das metáforas mais bonitas utilizadas neste trecho do filme é o de uma orquestra. É através dela que se versa sobre a necessidade da harmonia da escola com a comunidade. “Estão construindo coletivos, falando sobre aprender em redes, uma verdadeira revolução na educação está sendo feita pela juventude”, disse, com brilho nos olhos, uma professora.

Por fim, o documentário se encerra com a fala de um dos protagonistas, o cearense Felipe Lima, de 17 anos: “Como meus pais não foram bem-sucedidos, não me incentivaram a estudar. Nunca me sonharam em ser psicólogo, médico, professor. Eu tive de aprender a sonhar.”