04 de agosto 2017

10 sonhos antes dos 30 anos

Bruno Capao
04 agosto 2017

10 sonhos antes dos 30 anos

Bruno Capão realiza desejos enquanto promove ações transformadoras para fomentar a autonomia de crianças e jovens
Texto por: Debora Stevaux

“Eu sou um dos únicos jovens brasileiros, talvez do mundo, que vai realizar dez sonhos antes de completar 30 anos.” Assim começa a conversa com Bruno Horácio Pereira dos Santos, mais conhecido como Bruno Capão, 28.

Com voz baixa, mas eloquente, o homem alto e negro escolheu contar sua história na laje que dá visão para as casas dos mais de 20 mil moradores do jardim Valquíria, na periferia da cidade de São Paulo.

Formado em gestão ambiental pela Universidade Estácio de Sá, Bruno leva no nome o distrito do Capão Redondo “porque sabe de onde veio”. A região abriga hoje mais de oitenta bairros e é considerada a mais violenta de São Paulo. Estigma este que o jovem paulistano luta, diariamente, para tirar do lugar em que nasceu.

Bruno Capao (2)

Bruno relembra com carinho a figura da avó, Ezelina Mahmed da Silva, uma curandeira descendente de índios, muito famosa e querida pelos moradores do bairro. “Mulher forte, criou a família inteira: 8 filhos, 28 netos. Minha avó era uma personificação da força indestrutível. Ela tinha o poder fora do comum de curar as pessoas, e colocava um pouco disso em tudo que fazia, já era referência no bairro.”

Os alagamentos constantes no barraco de Ezelina forçaram a família a se mudar para uma casa, que foi comprada com dinheiro de tráfico de drogas. “Minha mãe foi a primeira mulher a traficar na boca-de-fumo do bairro.” Caminho seguido por Bruno, que foi detido pela primeira vez com 15 anos, para cumprir medida socioeducativa na antiga Febem. “Com 12 anos, entrei no mundo do tráfico também. Tinha o sonho de mudar de vida.”

Das grades para a vida

Filho de pai ausente, Bruno cresceu ouvindo a mãe falar mal do ex-companheiro. “Meu pai apareceu quando fugi da Febem, queria conversar porque descobriu que eu era um dos fugitivos”, diz. O momento foi tão intenso que levou Bruno a dar um novo rumo na vida. “Sentamos nós três, eu, meu pai e minha mãe. Ele deu um soco na mesa, disse que eu tinha que resolver a questão. Veio uma força de dentro de mim que hoje eu chamo de ‘tomada de consciência’ e foi aí que eu me dei conta que a minha vida estava em risco.”

Na segunda-feira seguinte, Bruno foi conversar com o promotor para se entregar novamente e cumprir o restante da pena. “Disse que queria pagar o que eu devia e sair pela porta da frente.” Passou os últimos cinco meses de prisão fazendo planos e projetos. “Só meu corpo estava preso, minha cabeça estava aqui fora, sonhando muito, com lista de sonhos e tudo”. Bruno completou seu primeiro sonho ao sair pela porta da frente da Febem: o resgate de sua dignidade.

Quando saiu da fundação, Bruno engravidou uma garota. “Precisava trabalhar, para sustentar meu filho e sua mãe. Foi desta forma que eu realizei meu segundo sonho, o de ser lixeiro.”

Bruno Capao (1)

Terminou o ensino médio em 2008 e prestou o ENEM. “Minha nota foi ridícula, vi que não conseguiria ingressar na universidade. Aí pensei comigo, dane-se, vou entrar de outro jeito. Não sei qual, mas eu vou, um dia eu entro lá.”

Neste mesmo ano, recebeu uma bolsa de estudos do Instituto Rukha, financiada por empresários europeus e destinada a líderes de comunidade - caso do Bruno. “Meu terceiro sonho era fazer faculdade”, conta. “Eu fiquei muito feliz e perguntei como poderia pagar por aquilo. A pessoa respondeu que eu não pagaria nada, mas precisaria devolver aquele conhecimento para a comunidade”.

Em parte por causa da experiência na coleta de lixo, Bruno escolheu o curso de Gestão Ambiental. Em seguida, começou um projeto de reciclagem no Espaço Recicle Capão Redondo. “Reunia a molecada e fazia vasos de garrafa pet. Víamos filmes, debatíamos. Fazíamos o lanche com o que comprávamos na feira no horário da xepa. Aproveitávamos tudo, fazíamos suco com casca, geleia com uma fruta mais passada. Esse foi um dos primeiros insights para que eu pudesse montar o café com o Zé.”

Do Capão para a Europa

Uma parceria entre o Instituto Rukha e a organização Outward Bound Brasil levou Bruno a ministrar uma atividade de imersão sobre a coleta de resíduos na Praia do Bonete, em Ilhabela (SP).

O evento gerou uma proposta de estágio na Outward Bound. O diretor da associação, surpreendido com o talento e a dedicação de Bruno, enviou-lhe um convite formal para fazer um curso de canoagem na Romênia. “O curso inteiro era em inglês, por quinze dias. O e-mail era imenso e eu respondi só um ‘topo’. Então, Bruno realizou seu quarto sonho, o de ter a oportunidade de sair do país.

Para acompanhar o curso, Bruno contou com a ajuda de uma colega do Equador, que traduziu todas as aulas para ele. Uma das ações sociais promovidas pela atividade de canoagem em grupo era recolher os resíduos sólidos da reserva de Sfântu-gheorghe-perisor-palade, um dos Patrimônios da Humanidade pela UNESCO.

Bruno apresentou um workshop sobre o lixo para os integrantes do programa e ficou surpreso com a falta de informação sobre reciclagem das pessoas de todas as partes do mundo. E disse a todos: “Já que não sabemos reciclar, então vamos nos dividir em grupos e criar coisas com esses resíduos. Um dos grupos montou uma maquete numa caixa de papelão. Essa maquete era o traço por onde percorremos por canoa. Essa obra ficou exposta por um tempo em um museu de Bucareste.”

Irmãos na TV

De volta da Europa, Bruno não tinha mais dúvidas do seu poder de transformação. Surgiam as primeiras experiências do café com o Zé. Ele convidava as pessoas a conhecer o bairro, comer bolo e ouvir a história do bairro. “Trouxe uma linguagem que sabia que iria dar certo e ia vender lá fora. Era tiro certo. Colocava gente de fora e de dentro da quebrada, ampliei os vínculos. Fazer essa experiência com formadores de opinião, com madames que nunca pisaram em favela foi muito mágico, nos levou para outros lugares.”

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Bruno e seu irmão, o Zé, participaram de um programa de TV, de quem ganharam ajuda financeira para tirar o Sustenta Capão do papel e colocar a mão na massa para realizar o quinto sonho, o de empreender. “O boom foi grande demais, aí ninguém segurou a gente.” E então se realizou seu sexto sonho, quando se apaixonou pela pedagoga Micheline Farias, também moradora do Capão.

Lado B

O projeto Sustenta Capão estava a todo vapor, mas uma cena fez Bruno voltar à estaca zero. “Uma menina fazendo xixi no balde, se limpando com uma roupa qualquer. Cheia de feridas de piolho. Pensei que eu não estava fazendo nada onde eu moro. E as pessoas? E a miséria desse lugar?”. Este foi o insight para a fundação do Instituto Lado B, seu sétimo sonho. “Precisava trabalhar com essas famílias, porque se a nossa família não tivesse tido um apoio, não teria chegado em lugar nenhum. Eu talvez nem estaria mais aqui se eu tivesse continuado na vida que eu estava.”

O projeto trabalha com inclusão e educação com foco em empreendedorismo social, para que as famílias ganhem autonomia para realizarem seus sonhos. “São vários workshops e oficinas que ministramos em espaços emprestados, por enquanto, tanto para a criançada, quanto para seus pais.”

O próximo passo de Bruno com o Lado B é alugar um galpão para dar aulas de programação, robótica, fazer um laboratório de tecnologia. Bruno também sonha com uma pista de skate, com uma piscina. “A gente tem que sonhar grande, porque nada é tão ruim que a gente não possa reverter o quadro de algum jeito.”

Bruno deseja ultrapassar os limites da pobreza e da vida precária que muitas famílias ainda levam no bairro. “Elas são o retrato da criança que eu vi. Quero mostrar para elas que a condição que elas estão não determina para onde elas podem e devem ir, que elas podem sonhar grande, assim como eu fiz lá atrás e estou realizando agora.”

Prestes a completar 30 anos, Bruno agora reúne seus esforços para materializar sua história: o oitavo sonho é uma autobiografia; o nono, um documentário sobre a sua história de transformação, para inspirar quem vive nas periferias do Brasil. O décimo remete a como prefere ser chamado: transformar o Capão Redondo em um patrimônio cultural da humanidade reconhecido institucionalmente.