31 de julho 2017

À meia-luz

gaslight
31 julho 2017

À meia-luz

Como o Gaslighting colabora para a violência de gênero
Texto por: Debora Stevaux

O termo “Gaslighting” remonta à peça norte-americana "Gaslight", que em livre tradução para a língua portuguesa significa à meia-luz. A obra de 1938, dirigida por Patrick Hamilton, tornou-se um filme em 1944, assinado por George Cukor. O roteiro se baseia na história de um casal, em que o marido tenta enlouquecer sua esposa diminuindo a luminosidade de todas as luzes da casa — que eram a gás. Todas as vezes em que a mulher apontava a diferença, o homem negava propositalmente.

Em consonância com o termo, "gaslighting" é uma palavra de origem inglesa utilizada para descrever uma forma de abuso psicológico. Neste caso, o parceiro diz e age para fazer com que a companheira questione sua própria sanidade, sentimentos e instintos.

Qualquer tipo de abuso diz respeito a relações de poder. É importante frisar que em relacionamentos que possam ser considerados abusivos, o parceiro, geralmente, diz algumas vezes que a mulher é louca, fazendo com que ela desacredite em suas próprias percepções. Para que isso seja possível, o homem distorce informações, omite outras seletivamente ou simplesmente as inventa para surtir o efeito de que ele tem sempre razão no que diz.

É o tipo de parceiro que já disse algumas das seguintes frases: "Isso nunca aconteceu, é coisa da sua cabeça", ou "você está maluca, está perdendo a razão" ou até mesmo "tem certeza do que está dizendo, você tem uma memória muito ruim". Quando isso ocorre, a pessoa pode estar presa num relacionamento abusivo e sofrer danos à saúde mental causados pelo companheiro.

Segundo o psicanalista Robin Stern, pesquisador do Centro de Inteligência Emocional da Universidade de Yale, há seis formas de reprodução de Gaslighting. São elas:


Retenção: O companheiro prefere não ouvir o que a parceira tem a dizer e finge que não está entendendo o que ela diz. Por exemplo, quando ele diz frases como "Não me fale isso de novo" ou "De novo? Você está tentando me confundir."

Contestação: O namorado ou marido coloca em xeque a memória da vítima, mesmo que ela esteja certa. Neste caso, frases como "Você não tem como ter certeza porque não se lembra das coisas direito."

Bloqueio ou Desvio: Quando o companheiro muda de assunto para evitar falar sobre determinadas coisas ou aponta a esposa ou namorada está sendo influenciada por outras pessoas. Neste caso, a frase mais clássica é: "Você está imaginando coisas" ou então "Quem colocou isso na sua cabeça? Foi fulano?", diz ao se referir a parentes ou amigos próximos.

Banalização: O marido ou namorado banaliza os sentimentos e o juízo de valor que a mulher faz sobre determinadas situações. Por exemplo, "Vai ficar brava por algo tão bobo?" ou até mesmo: "Deixe isso pra lá, você é muito sensível."

Esquecimento ou Negação: O parceiro finge ter esquecido de acontecimentos ou nega que algumas situações tenham acontecido. Acontece, em geral, com promessas e tratos dentro do próprio relacionamento. Por exemplo: "Eu não tenho ideia do que você está me dizendo, tem certeza?" ou "Pare de inventar as coisas, é tudo mentira."


É importante frisar que este tipo de abuso psicológico e emocional tem um caráter gradativo dentro de um relacionamento. Os primeiros traços comportamentais do companheiro podem se apresentar como inofensivos num primeiro momento. Entretanto, conforme o tempo vai passando, as atitudes abusivas vão assumindo um perfil mais imponente e constante, com efeito tóxico para a mulher. Ela desenvolve problemas como a baixa autoestima, ansiedade, depressão e isolamento, podendo perder, de fato, a noção dos acontecimentos à sua volta e se tornando dependente do parceiro para entender e interpretar a realidade.

A organização brasileira Livre de Abuso, criada com o propósito de conscientizar e ajudar mulheres que estão presas num relacionamento abusivo, listou 15 sinais que caracterizam um parceiro abusivo. É fundamental frisar que uma mulher que esteja se relacionando com um namorado ou marido nessas condições está emocionalmente fragilizada. Por isso é fundamental que, além de reconhecer os sinais — muitas vezes negados num primeiro momento —, ela aprenda a acreditar novamente nas próprias percepções.

É preciso estar atento aos pontos abaixo para identificar uma vítima de gaslighting.


1. Ela duvida de si mesma constantemente.

2. Ela se pergunta "Eu sou sensível demais?" várias vezes ao dia.

3. Ela constantemente se sente confusa ou até mesmo maluca.

4. Ela está sempre se desculpando para o seu parceiro.

5. Ela não entender por que, com tantas coisas aparentemente boas na sua vida, você não está mais feliz.

6. Ela frequentemente cria desculpas para justificar o comportamento do seu parceiro para amigos e família (e até para si mesma).

7. Ela começa a esconder informações de amigos e família para não ter de explicá-las ou inventar desculpas.

8. Ela sabe que algo está muito errado, mas nunca consegue expressar exatamente o que, nem para si mesma.

9. Ela começa a mentir para evitar as distorções da realidade e ser posta para baixo.

10. Ela tem dificuldade para tomar decisões fáceis.

11. Ela sente que costumava ser uma pessoa muito diferente – mais confiante, mais divertida e mais relaxada.

13. Ela se sente desesperançosa e desanimada.

14. Ela sente que não consegue fazer nada certo.

15. Ela se questiona com frequência se é uma parceira "boa o suficiente".